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“Que Deus tenha misericórdia dessa nação”

“Presidentes socialistas que me antecederam desviaram centenas de bilhões de dólares comprando parte da mídia e do parlamento. (…) Foram julgados e punidos graças ao patriotismo, perseverança e coragem de um juiz que é símbolo no meu país, o Dr. Sérgio Moro, nosso atual Ministro da Justiça e Segurança Pública” - quem proferiu esta frase, em discurso na frente de todo o planeta, na ONU, em 24 de setembro de 2019, foi Bolsonaro.
Hoje, também num dia 24, o ministro Sérgio Moro pede demissão, em coletiva de imprensa realizada há pouco. Não aceitou a troca de comando na Polícia Federal, imposta pelo presidente da República.
Para Bolsonaro, parece que a crise do novo coronavírus; a terra arrasada na economia; as polêmicas diárias sem a menor necessidade; as intrigas sem fim; as mensagens certas sob a forma errada, isso tudo não basta: é preciso ir além, é preciso demitir um de seus ministros mais importantes, em meio ao caos. Afinal, não há turbulência que satisfaça o governo atual, aparentemente.
Bolsonaro foi eleito sob as bandeiras da liberdade econômica e do rigor no combate ao crime, além, claro, da ojeriza à esquerda corrupta e conivente com a bandidagem.
No que Guedes chama sempre de uma aliança de centro-direita, entre liberais e conservadores.
Concordo, pois é inviável qualquer troca de governo passar, da noite para o dia, da extrema-esquerda para um governo apenas de direita.
Ao menos no mundo real, aquele que existe para além da internet.
Este mundo real impõe barreiras, e é preciso uma transição gradual.
O combate implacável ao crime, prometido por Moro, do “simples” traficante ao político corrupto, foi entregue ao presidente, e aos brasileiros, com números expressivos de melhora na segurança pública.
As apreensões de droga explodiram.
Os assassinatos, colocados, com razão, como urgência ainda maior do que qualquer pauta econômica, diminuíram e muito.
Membros importantes do PCC foram presos (salvo quando soltos por algum juiz ou ministro do STF), e colocados em prisões federais.
Podem dizer: "Ah, mas não liberou as armas de fogo aos cidadãos" - como atirador, defensor ferrenho do direito à defesa, digo: quem pode fazer mais do que foi feito é o Congresso Nacional. Simples assim. E ainda que fosse atribuição do ministério da Justiça, em meio a esta crise sem precedentes, econômica, política e social, evidentemente que isso não seria prioridade, muito menos motivo para demissão de quem quer que seja.
Moro mostrou-se corajoso, antes mesmo do início do governo, ao atrelar o seu famoso 'capital político', seu nome, ao governo atual. Tinha tudo a perder, pois sua reputação era seu tesouro.
Disse várias vezes que a esquerda tentou pautá-lo, e ele os mandou para a 'pauta que os pariu'. Uns acreditam que o fez por interesse à suposta vaga no STF, outros, por doação ao país (meu caso).
Os sinais que a saída de Moro passa são os piores possíveis: não se pode acusá-lo de comunista. Não se pode acusá-lo de corrupto. Não se pode acusá-lo de petista. Não se pode acusá-lo de burro. Então, qual a acusação que pende sobre o ministro? De ter feito exatamente o que ele falou que faria? De ser tido rigor moral, combatido a criminalidade, não aceitado ingerência na PF? Acusações assim deixariam qualquer um orgulhoso.
O fato, péssimo, é a de que um dos pilares do governo foi derrubado sem cerimônias.
A impressão de que, 'amanhã', Guedes, por qualquer motivo, poderá ser expulso também.
E, por último, as piores impressões: a de que o presidente quer se cercar de bajuladores, e que teme o rumo de alguma investigação da PF, direta ou indiretamente (o que seria a maior decepção coletiva dos últimos tempos deste país).
Presidente, sozinho, não apenas ninguém governa, como, no desespero, acaba cedendo ao que há de mais sombrio na política.
Cercado por pessoas que apenas lhe dizem 'amém', e 'genial', todo e qualquer líder acaba encontrando a sua ruína. Cedo ou tarde. A História está aí como testemunha.
Este ato intempestivo, mais um onde há falta de estratégia, especialmente na comunicação, parece ser a tônica do governo.
Bolsonaro, no momento atual, sem crises criadas de dentro, estaria surfando na impaciência das populações locais com seus governadores, que fizeram quarentenas mais políticas do que de saúde; estaria igualmente aproveitando o descrédito da imprensa com essas mesmas pessoas que se reaproximaram dela nos tempos recentes de coronavírus, e veem nas telas, diariamente, uma verdadeira torcida pelo desastre; estaria vendo o isolamento, a morte política de Rodrigo Maia, cujo contexto se daria via população, que está percebendo as chantagens políticas que o presidente da Câmara faz, sem necessidade de qualquer intervenção maior; estaria colhendo os frutos de um ministro da Saúde que não é politiqueiro, como Mandetta - neste caso, sim, uma decisão radical, arriscada, mas certa. Justificável. Mas... não. Só quem está dentro da máquina pode dizer o que se passa, mas, daqui de fora, parece que o governo federal tomou gosto por voos turbulentos - não bastando os ataques ininterruptos dos inimigos de verdade.
Após esta notícia, como também sempre digo, não começarei a torcer pelo pior, jamais. Me recuso a desejar o mal para o Brasil. Continuarei a torcer, afinal torço até pelo Botafogo. Mas deixo de acreditar, racionalmente, nas escolhas de Bolsonaro.
Não posso confundir o meu desespero por este país dar certo com apoio incondicional ao presidente.
Volto, como antes, a crer única e exclusivamente no Federalismo, com seus prós e contras, com a principal vantagem de tirar o poder de Brasília, deixando cada região com suas particularidades e líderes locais.
Um modelo que beneficia ou pune apenas a população de cada local.
E, por isso mesmo, por me parecer tão bom, um modelo que provavelmente jamais verá a vida no Brasil.
Caros leitores, podem me defenestrar, me chamar de comunista, mas me consideraria cego se não percebesse que este é um dia lamentável para o atual governo, e pior ainda: para o nosso país.
Como disse recentemente aquele então presidente da Câmara dos Deputados: “Que Deus tenha misericórdia dessa nação”.

João Ferreira


fonte: Jornal da Cidade

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