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Empresários e executivos joga duro a favor do impeachment

Alberto Saraiva, do Habib’s: “não posso me amedrontar, me calar e me recolher diante de um momento histórico do País, que está agonizando com tanta corrupção e pessimismo”
Empresários e executivos abandonaram o tradicional discurso cauteloso em relação ao governo e se movimentaram em favor do afastamento da presidente Dilma. Saiba como, de forma direta ou nos bastidores, eles atuaram e se tornaram cruciais no processo de impeachment

A semana que antecedeu a votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, na Câmara dos Deputados, foi especialmente intensa para o empresário luso-brasileiro Antônio Alberto Saraiva, fundador e presidente da rede de restaurantes Habib’s. Junto com o recém-contratado diretor de marketing da empresa, o publicitário André Marques, Saraiva gastou boa parte dos dias em reuniões com profissionais da agência de propaganda Publicis.
O objetivo era elaborar uma campanha publicitária que mostrasse, de forma clara, o posicionamento da rede de fast-food em relação ao atual momento da política nacional e, de quebra, a redução nos preços das esfihas de frango, que passaram de R$ 1,98 para o módico valor de R$ 0,79. O brainstorm logo resultou na campanha intitulada “Caiu!”, em alusão à previsível derrota do governo na Câmara – que deixa a presidente Dilma mais perto da queda – e ao novo valor do produto mais vendido no cardápio da rede.
“Gastei R$ 700 mil para produzir os vídeos que foram veiculados na tevê e mais R$ 4 milhões em divulgação”, afirma o empresário (leia entrevista ao final da reportagem). “A repercussão foi fantástica. Tive mais retorno nesta ação do que em todas as outras que já realizei, e que custaram mais de R$ 40 milhões.” A ofensiva pró-impeachment de Saraiva – ou “pró-mudança”, como ele prefere definir – foi mais um passo do empresário na tentativa de contribuir para as transformações que têm incendiado a rotina da capital federal nos últimos meses.
A campanha “Caiu!”, idealizada pelo próprio presidente da Publicis, Hugo Rodrigues, e dirigida pelo cineasta Breno Silveira, produtor do filme 2 Filhos de Francisco, será veiculada até o fim de maio. “Só conseguimos trazer o Breno pelo fato do roteiro ser inusitado e por pregar a união pelo Brasil”, diz Rodrigues, da Publicis. Seja como for, a mais recente iniciativa de Saraiva está em linha com o seu posicionamento pessoal. Nos protestos de rua em março, a rede de fast-food patrocinou a distribuição de cartazes com slogans como “Estou com fome de mudança”, “Quem espera nunca alcança” e “Quero meu País de volta”.
Nas imagens da manifestação na Avenida Paulista, em São Paulo, as cartolinas estavam por todos os lados. “Tenho sido alertado a ter uma postura mais moderada, sem me meter em assuntos políticos”, diz Saraiva. “Mas, independentemente da posição partidária, não posso me amedrontar, me calar e me recolher diante de um momento histórico do País, que está agonizando com tanta corrupção e pessimismo.” A corajosa decisão de Saraiva, num momento em que parte do empresariado prefere adotar a política do silêncio, temendo retaliações, tem sido encampada por outros empresários e executivos brasileiros, que assumem uma posição de protagonismo do processo de troca de comando no Palácio do Planalto.
É o caso de Flávio Rocha, dono da Riachuelo, uma das maiores redes de varejo de moda do País, que escancara abertamente seu desejo por um novo governo. “Desde setembro estou convocando nossos pares a se posicionarem, o que acabou acontecendo”, diz Rocha. “É uma postura pessoal, não da empresa, que é apolítica.” O empresário acredita que será importante para o Brasil o setor produtivo explicitar à população de que lado está. “Não vivemos apenas uma troca de governo, mas também de ciclo. Estamos passando de uma fase estatizante para uma que pressupõe que o empresário seja protagonista”, afirma. “Por isso, é muito importante que mostremos claramente os nossos pensamentos, para não dar uma sensação à sociedade de um salto no escuro.”
Entre as vozes mais críticas à condução econômica do governo Dilma está a de José Luiz Gandini, presidente do Grupo Gandini. Como controlador da marca sul-coreana Kia no Brasil e da montadora chinesa Geely, o empresário foi alvo da cruzada do governo contra os importadores. Sob o argumento de estimular a instalação de fábricas no Brasil, Dilma assinou, em 2012, a cobrança de 30 pontos percentuais de IPI adicionais sobre automóveis importados, além da taxa de importação de 35%.
“Se esse impeachment não sair e continuar tudo do jeito que está, estamos ferrados”, disse Gandini à DINHEIRO, uma semana antes da aprovação da continuidade do processo na Câmara. “É um absurdo ser penalizado com tantos impostos, sendo que o dólar a quase R$ 4 já nos cria um desafio gigantesco para nos manter vivos.” Desde o início do ano, Gandini tem intensificado seus diálogos em Brasília para tentar convencer o ministro Armando Monteiro, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, a retirar a tributação extra de IPI.
O esforço, no entanto, terá de ser direcionado ao novo ministro, caso Dilma e sua equipe deixem o governo nas próximas semanas. “Seja quem for, nosso pleito é claro, e pede apenas isonomia”, afirma Gandini. Quem não está dando a cara para bater e protagonizando campanhas a favor do impedimento de Dilma, prefere ajudar, sem aparecer, ambos os lados. Segundos fontes no setor de aviação executiva, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “ministro informal’’ do atual governo, está utilizando jatinhos cedidos por empresários para suas idas e vindas de Brasília, onde montou seu quartel-general em um quarto de hotel.
Além disso, o ex-ministro da Aviação Civil Eliseu Padilha (PMDB- RS), um dos conselheiros mais próximos do vice Michel Temer, admitiu que empresários colocaram suas aeronaves à disposição caso fosse preciso acudir deputados com imprevistos para chegar à votação. Não há informação de que os jatinhos tenham sido usados, mas o Ministro da Justiça, Eugênio Aragão, abriu uma investigação para apurar o caso. Mesmo que não tenha havido uma contribuição mais direta como a citada pelo braço-direito de Temer, lideranças empresariais avaliam que as campanhas em favor do impeachment foram – e serão – decisivas para influenciar o voto dos parlamentares.
A FORÇA DA INDÚSTRIA O maior símbolo do protagonismo do setor produtivo na campanha do “sim” está no coração de um dos mais movimentados cartões-postais do País. O imponente prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista, no centro da capital paulista, passou a estampar um painel de lâmpadas de LED com uma bandeira do Brasil e uma conclamação pelo impeachment. Patos infláveis confeccionados pela entidade tornaram-se figuras presentes em todas as manifestações contra a presidente Dilma, inclusive em Brasília.
Além de acolher manifestantes na área do prédio, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, criou campanhas com o nome, telefones e e-mails dos deputados da bancada paulista, convocando a sociedade a fazer pressão. “O Brasil está pedindo socorro”, disse Skaf. “O País precisa desse impeachment.” Aos poucos, dezenas de entidades empresariais vieram a público para se posicionar, publicando anúncios pró-impeachment em jornais e revistas. O presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Edson Luiz Campagnolo, acredita que a campanha ostensiva em cima da bancada tenha contribuído para reverter até seis votos de deputados indecisos ou contrários ao impeachment.
“Foi uma ação de emergência, um corpo a corpo mesmo”, afirma Campangolo. “Conversamos com parlamentares inúmeras vezes e fomos compartilhando a questão da dificuldade econômica que o País vive e a falta de comando.” Além do mapa do impeachment, com a posição dos deputados, montado na frente da entidade, os empresários paranaenses organizaram uma comitiva para o dia anterior à votação, em Brasília, onde fizeram um reforço final com a bancada. O envio do processo de impeachment ao Senado foi aprovado por 367 deputados, 25 a mais do que o mínimo necessário, contra 137 votos pela permanência de Dilma.
O esforço será repetido agora com os senadores. Embora tenha saído na frente, a indústria não está sozinha na pressão aos parlamentares. No dia seguinte à votação na Câmara, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) lançou um manifesto para estimular as federações regionais a alertarem os senadores a pesarem no voto a esperança que o comércio tem de o País sair do estado atual. “Se o Senado aprovar o afastamento, o ambiente político vai registrar uma mudança favorável”, afirmou o presidente da CNC, Antonio Oliveira Santos, no documento.
Na Fecomercio de Rondônia, o esforço começou antes, já na primeira votação, com campanha nas redes sociais, rádios e outdoors. “Durante o processo, havia alguns indecisos, alguns mais para o ‘não’, então a mobilização ajudou a sensibilizá-los”, afirma o presidente da entidade, Raniery Coelho. No Estado, os oito deputados votaram a favor do impeachment, inclusive um parlamentar do Partido da República (PR), cuja liderança orientou para ficar com o governo. A Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária (CNA), que foi por anos presidida pela atual ministra da Agricultura Kátia Abreu, organizou uma caravana a Brasília para um ato no dia da votação na Câmara.
Tendas com frutas receberam os cerca de 18 mil produtores rurais que viajaram até 28 horas, de ônibus, para a manifestação. “Parece que o Palácio do Planalto se tornou o palanque de uma minoria”, afirma José Mario Schreiner, vice-presidente da CNA e líder da Federação de Agricultura de Goiás. “Chegou ao ponto que não dá mais. Queriam mudar a cor do Brasil para vermelho, mas nossa cor é verde e amarela e nós queremos devolver essa cor ao País.” Acima de tudo, o estado frágil da economia sustenta tamanha mobilização do empresariado e serve de subsídios à força-tarefa de convencer os congressistas.
A Fiep, por exemplo, contabiliza cerca de 100 mil vagas perdidas no Paraná. Trata-se de um drama regional que reflete uma realidade nacional. Pelos cálculos da CNC, 100 mil lojas foram fechadas no ano passado em todo País. Caminhando para o segundo o ano seguido de recessão, com risco de estender para 2017, o País conta mais de 10 milhões de desempregados e 354 mil empresas extintas no ano passado. Comércio, serviços e a indústria estão encolhendo e o investimento, indicador do potencial de crescimento, cairá 9% neste ano, a segunda retração seguida.
“Os números são graves demais para que a gente continue sentado nas decisões”, afirma Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Eletro-Eletrônicos (Abinee). “Fiz tudo o que eu podia fazer no Congresso para mostrar a urgência de ações. Não significa que era defender o impeachment, mas isso ajudou a sensibilizar os parlamentares.” O deputado federal Toninho Wandscheer (Pros-PR), que foi eleito pelo PT e trocou de sigla na janela partidária do ano passado, estava indeciso até próximo da data de votação.
Atribui a sua escolha pelos “sim” principalmente à economia. “Não queria tirar a Dilma”, afirma. “Meu objetivo era criar uma condição para o Brasil crescer e, para crescer, tem de mudar.” Ele admite ter sido alvo de intensa pressão enquanto decidia, principalmente por ser ele também empresário, mas garante ter levado em conta todos os lados na sua escolha. “Eu sofri bastante porque a minha posição não era definida. Votei pelos trabalhadores, não há trabalhadores sem empresas.”
JATINHOS PARA TODOS De fato, nem todos que pressionam por mudanças declaram, abertamente, serem contra a presidente Dilma e seu governo. O executivo Carlos Pastoriza, presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), entidade que representa 7,5 mil empresas brasileiras, garante que tem adotado uma postura imparcial para pressionar por mudanças, exatamente como determina o estatuto da entidade. Isso não significa, no entanto, que a Abimaq não pressionará por mudanças.
Uma frente parlamentar criada no ano passado, no auge da crise política, contou com a adesão de 280 deputados. “Ganhamos uma interlocução maior em Brasília e um canal direto para lutar pelas principais demandas do nosso setor, seja qual for o governo”. De 2012 a 2015, as vendas de máquinas despencaram 50%. No primeiro bimestre deste ano, o faturamento recuou mais 25% na comparação com o mesmo período do ano passado. “Estamos observando um fracasso total da economia”, afirma Pastoriza.
Nem mesmo o varejo supermercadista, historicamente o último a ser afetado pelos ciclos de recessão, escapou incólume – e, como contra-ataque, decidiu se engajar. A Associação Paulista de Supermercados (Apas) tem pressionado deputados paulistas a votar por uma definição mais rápida para a crise política. “Junto com a Abras, a associação do setor que tem alcance nacional, estamos dialogando para apresentar saídas para resgatar o consumo das famílias, o principal motor da economia nos últimos anos”, diz Pedro Celso Gonçalves, presidente da Apas. “Muitos acreditam que não somos afetados, mas somos, sim. E muito.”
Muitos dos empresários que agora querem ver Dilma pelas costas já apoiaram seu governo, inclusive participando do chamado “Conselhão”, com reuniões infrutíferas em Brasília. Eles falavam, mas Dilma não os escutava. Agora, ao perder o apoio da classe empresarial – que financia boa parte das campanhas políticas no País –, a presidente continua falando sozinha. Em vez de escutar o clamor de quem gera empregos e renda, ela se diz vítima de um golpe de estado. “O que está em questão não é o meu mandato, está em questão o processo democrático.
Ou seja, está em questão aquilo que a gente dava como garantido”, afirmou a presidente Dilma Rousseff em entrevista a blogs, na quarta-feira 20. “Eu nunca achei que outra vez eu ia estar lutando por democracia. Então, como isso está em jogo eu vou lutar em todas as trincheiras que eu puder para derrotar esse golpe.” Se tivesse ouvido mais a classe produtiva, quem sabe teria sido menos intervencionista e assustado menos os investidores. Agora, ao que tudo indica, é tarde demais.
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“O governo é que está tentando dividir a sociedade. Queremos promover a união”
As polêmicas campanhas publicitárias lançadas pelo empresário Antônio Alberto Saraiva, presidente do Habib’s, repercutiram até no alto escalão do governo Dilma. O ex-ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, chegou a acusar as empresas, incluindo o Habib’s, de estarem organizando movimentos populares contra a presidente. Saraiva, no entanto, rebate a acusação. “Não estamos promovendo nada, estamos apenas nos posicionando contra a corrupção e contra a vergonha que tomou conta do País.” Em entrevista à DINHEIRO, o empresário afirma que seu objetivo é unir a sociedade, não promover o caos.
O sr. recebeu críticas pelas campanhas que lançou?
Não. Só recebemos elogios. É evidente que sempre há quem interprete de forma equivocada a mensagem das campanhas, e prefere radicalizar. Mas não recebi nenhuma crítica ou ofensa diretamente. A repercussão foi muito boa.
Mas o Habib’s recebeu críticas nas redes sociais por, supostamente, incentivar o conflito entre militantes pró e contra o impeachment...
O governo é que está tentando dividir a sociedade. Queremos, do nosso lado, é promover a união. Quem prestar atenção em nossa última campanha verá manifestantes vestidos de vermelho se abraçando com manifestantes com roupas verde-amarelas. Nossa empresa, o Habib’s, é democrática. Atendemos mais de 200 milhões de pessoas em nossos restaurantes no ano passado. Ricos ou pobres, negros ou brancos. Todos têm espaço aqui. Quem ganha umas moedas no semáforo pode comprar uma esfiha nossa. Então, quem está promovendo a divisão da sociedade não somos nós.
A saída é o impeachment?
Não posso tomar posição. O que posso dizer, e daí cada um tira suas próprias conclusões, é que não existe uma saída consensual. Seja qual for o desfecho, algum lado se sentirá injustiçado. O fato é que o País estava caminhando para o desastre total, sem direção, sem liderança. Aí surgiu a opção de um governo com o vice Michel Temer. Isso fez brotar a esperança novamente. Fez brotar uma possibilidade de solução. Não existe maior desgraça do que o pessimismo.

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