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Empresários defendem a saída de Dilma, setor produtivo diz basta


 A avenida Paulista, centro econômico da cidade de São Paulo, se transforma num imenso passeio público aos domingos e feriados, quando as vias são fechadas para a circulação de veículos. Mas, na quinta-feira 17, nenhum carro conseguiu cruzar seus 2,7 quilômetros. A borracha dos pneus foi substituída pela dos tênis e sapatos, que ocuparam as ruas para protestar contra a presidente Dilma Rousseff. Desde a tarde do dia anterior, quando houve a confirmação da nomeação do ex-presidente Lula como ministro-chefe da Casa Civil, o local se tornou o ponto de encontro espontâneo de manifestantes da oposição ao governo. As cores verde e amarelo eram predominantes, assim como os curiosos que passavam pelas calçadas, sacavam seus celulares e registravam o momento nas redes sociais. Os ânimos, algumas vezes, lembravam um cenário de guerra. Camisas ou objetos vermelhos, que remetem às cores do PT, eram vistos com restrição. Qualquer movimento em falso ou palavra mal colocada acendia o pavio de brigas e xingamentos. Na manhã de sexta-feira, a tropa de choque da Polícia Militar entrou em confronto com cerca de 100 manifestantes acampados em frente à Fiesp, entidade que assumiu o protagonismo nas manifestações contra o governo petista. A Paulista precisava ser liberada para os carros e para a manifestação pró-governo, que aconteceria naquela tarde.

Um ideal: Alencar Burti, presidente da Associação Comercial de São Paulo (à esq) e Paulo Skaf, presidente da Fiesp, na adesão dos empresários ao impeachment

Nessa clima de revolta, o momento mais simbólico para os anti-Dilma acontece ao anoitecer. A multidão vai à loucura quando um imenso painel de LED, composto por mais de 26 mil clusters, com quatro lâmpadas cada um, acende no prédio em formato de pirâmide, no número 1313 da Paulista. Os 3,7 mil metros quadrados de luzes, que revestem o prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), trazem mensagens diretas como “renúncia já” e “impeachment”, provocando fortes reações das pessoas que assistem a cena, à la Times Square. No início da noite da quinta-feira, quando as luzes se acenderam, durante cerca de 10 minutos o juiz Sergio Moro foi ovacionado, em meio aos gritos de “fora Dilma” e “Lula na cadeia”. Em seguida, a Fiesp tocou o Hino Nacional e a multidão de cinco mil pessoas acompanhou, em coro. No 15º andar, o presidente Paulo Skaf ouvia com atenção o clamor da avenida e perguntava aos assessores se o pato amarelo estava montado. Figura criada pela Fiesp contra a volta da CPMF, o pato se transformou no símbolo de que a população não vai pagar a conta da crise e da corrupção. No dia anterior, a ocupação da avenida foi mais rápida do que a bomba de ar e o mascote só ficou cheio por volta das 22 horas. Sim, o pato estava na rua. “Por mais que os discursos petistas tentem dividir o País, a nação vai continuar unida”, diz Skaf. “O fundamental de todos esses movimentos, de todo esse processo de transição e transformação, é a paz e o respeito.”
Paulo Skaf demonstra serenidade e segurança para falar do momento de tensão política que vive o país. Para ele, o debate é um sinal de democracia. Desde o final do ano passado, o dirigente assumiu a posição de defender o processo de impedimento da presidente Dilma. Durante alguns meses, navegou praticamente sozinho nesse mar considerado pela situação como um golpe ao resultado das urnas. Mas, nas últimas semanas, com as novas revelações da Operação Lava Jato e a delação do ex-líder do governo Delcídio do Amaral, Skaf conseguiu a adesão – abertamente – de boa parte da classe empresarial, da indústria ao varejo. “É preciso resolver a crise política. Estamos entrando no terceiro ano de paralisia dos investimentos. O País não aguenta mais um ano sem ter mudanças estruturais”, diz Cleber Morais, presidente da Schneider Electric.
As regras do processo de impeachment foram definidas pelo Supremo Tribunal Federal, na quarta-feira 16. No dia seguinte, a Câmara aprovou a eleição dos 65 deputados que farão parte da comissão especial que analisará as denúncias contra a presidente Dilma. Nesse dia, Skaf reuniu na Fiesp mais de uma centena de líderes de entidades de todos os setores, dos serviços ao agronegócio, que apoiaram com entusiasmo a campanha lançada pela entidade, de “impeachment já”. “A presidente Dilma abdicou do poder ao colocar o presidente Lula na Casa Civil”, diz Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura de Lula e coordenador do centro de agronegócios da FGV. “Se ela não saiu realmente, ela deixou o poder de fato.”
Presidente da Fiesp desde 2004, Skaf conseguiu resgatar o prestígio político e a importância de uma entidade que anteriormente era considerada decadente. Nesses 12 anos, enfrentou o sucateamento da indústria nacional, que perdeu peso expressivo na formação do Produto Interno Bruto (PIB). Quando ele assumiu, a participação da indústria de transformação, por exemplo, era próxima de 20%. Agora, está abaixo de 10%, semelhante ao que era nos anos 1950. Com bandeiras pela desoneração dos impostos, a desburocratização de processos, a necessidade de reformas e o fortalecimento do produto nacional no comércio exterior, Skaf assumiu a posição de líder dos empresários e, indiretamente, dos descontentes com o País. As manifestações, tradicionalmente em frente ao prédio da Gazeta, na altura do número 900 da Paulista, mudaram para a frente do prédio da Fiesp desde que o movimento Passe Livre tomou as ruas, em 2013.
O bom trânsito em diversos públicos demonstra as pretensões políticas de Skaf. Filiado ao PMDB, ele já se candidatou duas vezes ao governo do Estado de São Paulo. Nas eleições de 2009, ainda pelo PSB, recebeu pouco mais de 1 milhão de votos e ficou na quarta colocação. Em 2014, pela atual legenda, foi o segundo mais votado, com cerca de 4,6 milhões de votos. “Defendo desde o ano passado que o PMDB deveria ter rompido com o governo e retirado todos os cargos”, diz Skaf. “Agora, creio que o PMDB vai romper, como acredito que o processo de impeachment terá sucesso tramitando no Congresso, de acordo com a lei. O Brasil pede socorro e precisa disso.”
Ele não está mais sozinho. Suas palavras começam a ser replicadas por empresários preocupados com a depressão na economia. O índice de confiança da indústria, medido pela Fundação Getúlio Vargas, caiu de 86,2 pontos para 74,7 pontos. A previsão de recessão por 11 trimestres, até o último deste ano, deve fazer o País encolher 8,1%. Algo semelhante aconteceu entre 1981 e 1983 e entre 1989 e 1992, quando a retração econômica foi de 8,5% e 7,7% do PIB, respectivamente. “Não tem mais saída para o atual governo”, diz Edgard Corona, dono das academias Bio Ritmo. “A presidente perdeu a capacidade de governar.” Alencar Burti, que dirige a Associação Comercial de São Paulo, defende a saída de Dilma. “Para o bem de todos, renuncie já, evitando um processo que irá prolongar as dificuldades do País”, aconselhou.
A troca de Joaquim Levy por Nelson Barbosa, no ministério da Fazenda, ajudou a escancarar o descontentamento dos empresários com os rumos da economia. Levy assumiu o cargo com a proposta de promover um enorme e doloroso ajuste fiscal, para recolocar as contas públicas no lugar. Seriam dias difíceis, mas necessários para o País dar uma virada. Porém, a vontade do ministro em trazer o reequilíbrio às contas públicas foi barrada pela má vontade política. O Congresso deixou de aprovar medidas importantes para reduzir o déficit fiscal e integrantes do governo manifestavam-se publicamente contra as pretensões de Levy. Barbosa assumiu o cargo e desmontou a base deixada pelo antecessor, priorizando o crédito subsidiado e outros estímulos para ampliar o consumo. As contas públicas registraram retração de 0,57% do PIB em 2014 e de 1,88% no ano passado. Neste ano, no acumulado de dozes meses até fevereiro, o recuo é de 1,75%. “Temos um governo em que as decisões macroeconômicas são tomadas por influência política, fundamentalmente”, disse Roberto Setubal, presidente do Itaú Unibanco, na terça-feira 15. “Se não conseguirmos fazer a economia se ajustar e começar a alocar recursos onde somos competitivos, vamos continuar jogando dinheiro no lixo.”
O mercado de trabalho é a ponta mais sensível dessa crise. Em 2015, a taxa de desemprego avançou de 6,8% para 9% da população economicamente ativa. Quase 100 mil lojas, de todos os tamanhos, fecharam as portas no ano passado. As pequenas e médias empresas, maiores empregadores do País, estão sufocadas pela falta de crédito e pela ameaça de falência. “Somos o setor que mais emprega pessoas com baixa qualificação e o que mais sofre com o desemprego”, diz Luciano Amadio Filho, presidente da Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas. “Num período de um ano e meio, tivemos um milhão e meio de demitidos. Não há mais investimento, o País não investe mais em infraestrutura.” A Formação Bruta de Capital Fixo, indicador que mede os investimentos das empresas, está em queda há seis trimestres consecutivos.
O coro dos empresários não se resume apenas aos fatores ligados à economia e aos seus negócios. Há um clamor pelo fim da crise moral, como definiu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Vivemos uma revolução da cultura do país, onde as questões morais começam a se equalizar e vão conduzir a uma nova ótica de relações e restabelecer uma nova norma de conduta na sociedade”, diz Pedro Janot Jr., ex-presidente da Azul e atual CEO da consultoria Contravento. “Principalmente na relação do governo com a sociedade.”
Colaboraram Letícia Liñeira e Moacir Drska

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Entrevista  |  PAULO SKAF
“Há confiança no Brasil, mas não no governo”
O barulho que tomou conta da avenida Paulista, no início da noite de quinta-feira 17, invadiu o 15º andar da sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Mesmo com os vidros fechados, apitos e buzinas faziam uma espécie de segunda voz às palavras do presidente Paulo Skaf. Minutos antes de conversar com exclusividade com a DINHEIRO, ele conquistou o apoio de mais de uma centena de empresários e representantes de classe ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, uma batalha que ele abraçou no final do ano passado. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Por que o impeachment é a melhor saída para o Brasil?
Porque é a mais rápida e há vontade política nessa direção. O Brasil está passando por um momento que precisa de soluções de emergência. Perderemos, entre 2015 e 2016, quase 3 milhões de funcionários com carteira assinada. O desemprego vai passar a casa dos 10 milhões. Isso é muito grave. Além disso, os investimentos estão travados, o consumo despencou e estamos assistindo indústrias fecharem. Foram fechadas 99 mil lojas. Isso representa quase o mesmo número de lojas em quase todos os shopping centers do Brasil. Esse projeto do PT, de anunciar a venda das nossas reservas cambiais, comprometeria o agronegócio inteiro. A economia está indo mal por causa da crise política. Há confiança no Brasil, mas não há confiança no governo.
Com a comissão do impeachment na Câmara, o melhor cenário traria uma solução em cerca de 30 dias. O Brasil aguenta estender ainda mais essa crise?
Estamos perguntando se vamos aguentar mais 30 e poucos dias, quando já estamos aguentando meses. É lógico que quanto mais o tempo passa, mais fragilizada fica a economia, o emprego, o consumo e o investimento. Então, quanto mais rápido, melhor. E não temos alternativa, temos de respeitar a lei. O processo de impeachment tem de ser tramitado de acordo com a lei e as regras recém-decididas pelo STF. Mas, no primeiro dia de regras definidas, a Câmara deve mostrar eficiência e vontade política para que o processo ande. Na melhor hipótese, são 35 dias. Um mês e pouco passa rápido. O que não pode haver é falta de celeridade. O Brasil está precisando dessa solução.
Mudança de governo significa a volta da confiança?
A presidente perdeu o controle. As atitudes dela são para salvar o governo e não para atender a população ou a nação. O Brasil passou a ser um navio à deriva. A nomeação de Lula é uma tentativa de um golpe. No fundo, o Lula não foi eleito para governar em 2016 e nem o brasileiro decidiu pelo parlamentarismo. No momento em que a presidente traz o Lula para comandar a situação, é uma mudança muito grave. Então, um governo, que tem como única bandeira o aumento de impostos, sendo que a sociedade não aceita de jeito nenhum, tenta dar um golpe, mudando o regime e impondo um ex-presidente para governar no lugar dela, tudo é muito grave e passou dos limites. O afastamento ou o impedimento dela fariam nascer uma nova esperança.
Por que o sr. não acredita que o Lula possa usar o capital político para salvar o governo?
Há 14 anos eles estão comandando o País. Eles nos levaram a esse momento, em que lojas fecham, indústrias fecham, empregos acabam e há escândalos de quadrilhas instaladas nas estatais. A nossa maior empresa, que orgulhava os brasileiros, a Petrobras, virou um pesadelo. A Dilma tem a legitimidade por ter sido eleita, então é um processo legal para tirá-la. Agora, é um golpe colocar o Lula no poder, quando ele não foi eleito para isso, ou promover uma mudança de regime ou de sistema. E se isso também é para dar um Foro de mais proteção, pior ainda.
O sr. conversou com as lideranças do PMDB para saber como o partido está se posicionando em relação ao governo?
Conversei. Minha opinião, desde o ano passado, era a de que o PMDB deveria ter rompido com o governo e retirado todos os cargos. Mas isso não aconteceu. Acho que o PMDB perdeu uma grande chance na Convenção Nacional de fazer isso. O fundamental é que não é possível um partido como o PMDB não dar um exemplo num momento como esse.
Que exemplo o PMDB deveria dar?
O PMDB tem que mostrar para o povo brasileiro que ele está preocupado com a situação. Nitidamente, a presidente Dilma, com total descontrole e falta de capacidade para presidir o País, não está servindo à nação. Por essa razão, creio que o PMDB vá romper com o governo e acredito que o processo de impeachment terá sucesso tramitando no Congresso, de acordo com a lei.
O vice-presidente Michel Temer está pronto para assumir o comando do País?
Se acontecer o impeachment e o vice-presidente assumir a presidência, ele terá de pensar exclusivamente nos interesses da nação brasileira e não nos interesses pontuais partidários, nem em ninguém. Nesse sentido, a reforma política faz parte de uma das prioridades do país, junto com outras reformas, como a da previdência, o ajuste fiscal,  e não de aumento de impostos, mas de redução de gastos. Não se pode descartar um plano de retomada de crescimento e, acima de tudo, dar um bom exemplo de governo. O que vem sendo mostrado aí faz com que a população perca a esperança. Esperamos que a mudança abra um novo horizonte. O presidente Michel Temer está consciente que as pessoas vão estar observando muito. Porque há muita desconfiança em toda a classe política, não só na presidente.
O sr. toparia fazer parte de um governo de coalizão?
Não. Eu colaboro onde estou. Colaboro de uma forma boa, porque tenho um compromisso aqui de permanecer até o final do meu mandato. Creio que os empresários podem participar mais, porque o governo se faz para a sociedade. Hoje é preciso fazer o plano do que mais interessa ao País. Não participar diretamente de um cargo, de um ministério, não significa que está deixando de participar para gerir, propor alternativas e saídas. Acho que uma sociedade organizada teria muito mais a colaborar do que fazer parte do governo. Não teria nenhuma intenção de participar diretamente.
Os questionamentos da presidente sobre o Poder Judiciário podem levar a um rompimento institucional?
A presidente Dilma tem de lembrar que os Poderes no Brasil são independentes, como manda a Constituição. Ela, como presidente da República, e até como cidadã, pode manifestar as suas ideias. Mas é importante que ela saiba, como chefe de um Poder, que não cabe a ela comandar o Legislativo e muito menos o Judiciário. Não creio que a gente chegue a um rompimento institucional. Da nossa parte, vamos lutar muito para que o impeachment tenha sucesso. Mas vou lutar muito para que tudo isso aconteça com muita paz, equilíbrio e respeito entre as pessoas.
Há alguma indicação para os empresários não pagarem impostos como resposta à corrupção?
Existem muitas pessoas que querem parar de pagar impostos e depositar o valor sem recolher para o governo. Sinceramente, estamos lutando pela legalidade. O governo não estar gastando da melhor forma não serve de justificativa para que as pessoas ou as empresas deixem de pagar os impostos. Não serei eu que vou pedir que pessoas ou empresas deixem de cumprir suas obrigações legais. Quem reclama de ilegalidade não deve praticá-la.

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