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"O governo quer inventar uma forma de fazer economia que só existe na Venezuela"

Gustavo Franco (Foto: Henk Nieman / Editora Globo)
Um fracasso de proporções históricas, do ponto de vista econômico e moral, representado pelo Partido dos Trabalhadores. Foi assim que Gustavo Franco, que presidiu o Banco Central durante o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), definiu a atual situação do Brasil.
Durante o evento “Perspectivas Brasil”, do Instituto Millenium, Franco, que também é sócio da Rio Bravo Investimentos, afirmou que o caminho a seguir para contornar o atual caos econômico é sabido por todos os economistas políticos, de dentro e fora do governo. Entretanto, não existe espaço dentro dos partidos políticos para discuti-los.Gustavo Franco conversou com ÉPOCA sobre os maiores problemas da economia brasileira, a culpa dos empresários na crise e o caminhos a seguir.
ÉPOCA - Qual o principal desafio da economia brasileira hoje?

Gustavo Franco - É a dívida pública. O juro da dívida brasileira nos custa muito - 55% ou mais da despesa do governo são juros. Se vamos fazer cortes substanciais, é preciso fazer algo sobre a parte de juros do orçamento, que é grande e pesada. O Banco Central não está sendo ganancioso ou malvado ao fixar a taxa de juros onde ela está. É o mercado. A pergunta é: por que o mercado é tão desfavorável para a dívida pública? E a resposta parece ter a ver com o tamanho dela. Aparentemente, a dívida brasileira é muito grande para a nossa capacidade de absorção. Não somos uma economia rica em termos de poupança acumulada. No entanto, a maior parte do patrimônio das pessoas, dos investidores institucionais, dos fundos de pensão e dos fundos mútuos está aplicado em papeis públicos – é 70% do patrimônio. É muito! E enquanto for assim, é impossível reduzir o juros, que prejudica a economia em uma infinidade de maneiras. Desde o fim do Plano Real o grande desafio era chegar ao nível de juros de primeiro mundo - baixos. Se tivermos isso podemos ambicionar taxas de crescimento asiáticas, de dois dígitos durante décadas. O patamar do Brasil parou enquanto que o da Ásia foi embora. Quando comecei minha vida como economista, o Brasil era do tamanho da Coreia, hoje a Coreia é duas vezes o Brasil. Isso em um intervalo de 30 anos. Isso porque fizeram o trabalho certo nesse aspecto do custo de capital.   
ÉPOCA - Não é de hoje que os empresários reclamam dos custos dos impostos e das questões trabalhistas, que impactam nos negócios. O governo está pouco disposto a reduzir sua arrecadação. Há reformas menos custosas capazes de mudar a realidade econômica do país?
Franco - Um assunto que apareceu brevemente na campanha presidencial foi  índice de facilidade de fazer negócios no mundo. Nesse índice o Brasil tem uma classificação horrorosa (no ranking do Banco Mundial , que classifica economias pelo grau de facilidade de se fazer negócios, o Brasil encontra-se da 177º posição em um universo de 186 países). Ali há um roteiro do que seriam as reformas que vão agradar ao mundo empresarial e fazer as empresas brasileiras investir, a criar empregos e gerar riqueza. Entre os pontos destacam-se tributos, legislação trabalhista, abrir e fechar uma empresa, cartórios, as obrigações acessórias que são um pesadelo para as empresas. A maior parte dessas mudanças pode ser feita agora, é só uma questão de vontade política. Elas não têm impacto nas contas públicas. Este governo abandonou essa agenda e passou a preferir outro tipo de relacionamento com as empresas, com outro foco – como as reduções de impostos e desonerações seletivas. Preferiram seguir por outra via anticapitalista. E querem saber? Deu muito errado. Está na hora de voltar para uma agenda convencional. Não que ela seja capitalista ou neoliberal.  Nada disso. É uma agenda de consenso defendida no mundo todo. Estamos querendo inventar outra forma de fazer economia que aparentemente só existe na Venezuela, na Rússia e que não vai funcionar aqui nunca. Chegou a hora de mudar. Está muito claro. Isso não tem nada a ver com crise política, é o descarrilamento econômico. A política econômica é um fracasso.  
                                                                                                                              ÉPOCA - Críticos apontam certa negligência das empresas ao não terem feito investimentos, durante a bonança, que poderiam garantir um colchão de segurança agora. Qual é a culpa dos empresários pela crise?

Franco - Nenhuma. É preciso deixar muito claro isso. A responsabilidade é do governo. A metáfora para isso é o sujeito que, estando 20 graus abaixo de zero lá fora,  sai para dar um passeio de short e camiseta, pega uma pneumonia e põe a culpa no frio.     
    
 ÉPOCA - No caso de um novo governo, qual a primeira medida que deveria ser tomada pra que o país começasse a vislumbrar um cenário de melhora da economia?

Franco - Não existe uma bala de prata, uma coisa que é a raiz de todos os males. O que terá que existir é um programa com alguma coisa que no seu conjunto faça sentido e que trate de diferentes problemas e diferentes agendas que estão aí em aberto.


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