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Um desastre humanitário no centro de São Paulo

Sem abrigo no Acre, haitianos começam a chegar em São Paulo
Imigrante haitiano, Ferdinand Charles, de 34 anos, não fala português nem inglês. Como as línguas oficiais do seu país são o crioulo e o francês, Charles tenta se comunicar com as mãos. O primeiro sinal que faz é para explicar que está com fome. Depois, abre a carteira e mostra uma foto com a família, formada pela esposa e quatro meninas que não estão nem na adolescência. Há 15 dias, ele largou os parentes na cidade de Gonaïves, a quarta maior do seu País, e chegou ao Acre. Ficou pouco tempo e ganhou uma passagem do governo estadual para vir a São Paulo. Agora, enquanto espera conseguir uma carteira de trabalho para buscar um emprego, Charles dorme com outros 90 conterrâneos em colchões no chão da Igreja Nossa Senhora da Paz, na Baixada do Glicério, centro da cidade, e depende de ajuda para se alimentar.
Enquanto Charles conta sua história com a ajuda de outro haitiano, um dos poucos no grupo que fala inglês, mais cinco imigrantes entram no pátio da igreja com algumas malas nas costas. Esta é a nova rotina na Missão Scalabriniana Nossa Senhora da Paz, conhecida como Missão Paz, desde que o principal abrigo para haitianos foi fechado na cidade de Brasiléia, no Acre, no início do mês. “Na nossa estrutura já passaram 450 haitianos da primeira semana de abril até agora. Temos uma média de 90 haitianos dormindo aqui por dia além dos 110 que já recebemos normalmente na Casa do Migrante. Ontem saíram duas ou três mulheres e chegaram mais 25 imigrantes”, conta o padre italiano Paolo Parise, diretor do Centro de Estudos Migratórios (CEM) da Missão Paz.
Os haitianos estão alocados de forma improvisada em um dos salões da Missão Paz. Eles dormem em colchões, um do lado do outro, e recebem cobertores por causa do frio durante a noite. Não têm, no entanto, como tomar banho. E comem com a ajuda de moradores do bairro no entorno ou quando outros imigrantes que já estão fixados na região se mobilizam para ajudar. “Sábado alguns imigrantes peruanos vão fazer um sopão para eles. Com a ajuda dos haitianos que já vivem em São Paulo há algum tempo fizemos um jantar na segunda. Foram necessários 110 pratos”, explica Parise.
O fluxo de imigrantes haitianos na capital paulista aumentou porque o governo do Acre pagou passagem de ônibus para as pessoas que estavam abrigadas em Brasileia irem para outros estados, mas a maioria optou por São Paulo. A justificativa do secretário dos Direitos Humanos do estado do Acre, Nilson Mourão, é que as cheias do Rio Madeira impediram a continuidade do trabalho. Assim, neste meio tempo, pelo menos 1.800 imigrantes começaram a se espalhar por diversas cidades do País. Até agora aproximadamente 600 chegaram à capital paulista, de acordo com estimativa da Prefeitura de São Paulo, que diz ter sido pega de surpresa.
O fato de o governo do Acre, a prefeitura de São Paulo e o governo federal serem controlados pelo mesmo partido, o PT, não ajudou na comunicação. “Nós não fomos avisados. O prefeito Fernando Haddad ligou para o governador do Acre para deixar claro essa preocupação. O Ministério da Justiça também não foi avisado. A gente precisa identificar esse processo. Precisamos envolver o governo federal e o estadual”, afirmou Paulo Illes, coordenador de políticas para migrantes da prefeitura. Agora, o poder municipal está tentando conseguir um ginásio para colocar de forma emergencial os imigrantes que estão chegando na cidade.
Responsável pelos cuidados com os imigrantes, o padre Parise disse que recebeu uma ligação de Mourão, o secretário do Acre, pouco antes da “onda de imigrantes” começar a chegar, mas afirmou que o secretário assegurou que eles estavam só de “passagem”. “O Nilson Mourão tinha falado que era só para ajudarmos eles (haitianos) a pegar ônibus para o Sul do Brasil. Depois que a coisa toda se revelou. Mais ou menos 2/3 dos que chegaram até agora estavam sem dinheiro, com fome, alguns com a roupa do corpo e precisavam de abrigo. Os primeiros colocamos na Casa dos Migrante. Outros encaminhamos para o Arsenal da Esperança, aí uma certa altura começou a chegar gente que não acabava mais e não podemos deixar eles na rua”, explicou.
Segundo o padre, alguns haitianos chegaram a ser encaminhados também para albergues da cidade, mas, normalmente, eles não querem ficar e voltam para a Missão Paz. “A nossa tentativa há anos é convencer a Prefeitura que precisa abrir uma casa com perfil só para atender imigrantes e refugiados, coisa que não estão entendendo. Eles acham que (os haitianos) precisam entrar no bolo dos abrigos de pessoas em situação de rua. Tem três instituições que cuidam dos imigrantes. As três são ligadas à Igreja Católica. As três trabalham no limite. O fato dos haitianos agora só revela um fato que espera uma resposta que está atrasada”, alertou.
Sem emprego
Independentemente da cidade onde nasceram, os haitianos têm a mesma resposta quando perguntados sobre o interesse em vir para o Brasil: um emprego. Todos reclamam que há poucas chances de conseguir um trabalho no país de origem e eles se sentem “obrigados” a deixar suas famílias para tentar enviar dinheiro de outro lugar do mundo. “Depois que você termina a escola ou a universidade você tem que sair do país. São poucos empregos, pouco dinheiro”, reclama Alcius Kedner, de 28 anos, que chegou na Rodoviária da Barra Funda na terça-feira (22).
A esperança de conseguir garantir uma vida melhor faz, inclusive, com que alguns imigrantes cheguem “em família”. Jean Michelle Jeanty, de 47 anos, por exemplo, veio ao Brasil com o cunhado, de 34 anos. Largou a mulher e os dois filhos na cidade de Léogâne e parece estar convencido de que fez a melhor escolha mesmo quando questionado sobre quem vai garantir alimento para a família neste período em que ainda está tentando se estabelecer na capital paulista. “Ninguém. Eu quero mandar dinheiro”, afirma.
E, apesar das dificuldades com a língua, os haitianos estão recebendo diversos convites para ocuparem postos de trabalho de mão-de-obra barata. Várias empresas já procuraram a Missão Paz para oferecer emprego aos imigrantes, mas as ofertas esbarram na burocracia da retirada dos documentos necessários. Ainda que todos os haitianos já tenham CPF (Cadastro de Pessoa Física), muitos ainda não conseguiram a Carteira de Trabalho, o que dificulta a contratação.
“Ontem nós conversamos com o Ministério do Trabalho para propor uma ação especial para dar Carteira de Trabalho para esses imigrantes. Atualmente, em São Paulo, demora um mês e meio para conseguir uma carteira. Já tem trabalho, as pessoas estão prontas para contratá-los e falta o documento. Ontem (terça-feira 22), eu contei e tinha 50 haitianos sem isso”, avisa Parise.
Ainda que esteja passando fome e não possa nem tomar banho, Ferdinand Charles só tem uma preocupação: ligar para a família para avisar que está bem. “Não tenho dinheiro para falar com a minha esposa”, lamenta antes de reforçar que não quer voltar para o Haiti. “Melhor, se possível, seria encontrar um emprego para mandar dinheiro para os meus parentes”.

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