O PESO DO PREÇO DO TOMATE: O preço do tomate é um desastre. Um desastre aéreo. Não pela gravidade da coisa, mas pela causa: o responsável foi uma “combinação de fatores” – a explicação clássica para as quedas de avião.

O primeiro fator é o mais inusitado: um dos culpados pelo tomate caro demais é o tomate barato demais.

Ótimo para uma das partes, a que compra. E péssimo para a outra. Tinha agricultor jogando caixa de tomate fora – se gastassem com o transporte delas ficariam no prejuízo. Era o crash tomateiro. Depois dessa, as fazendas diminuíram as áreas de plantio de tomate. Natural.
E a oferta minguou. Mas foi bom: com menos tomate no mercado, o preço voltou a um patamar mais aceitável para quem planta – uns R$ 30 a caixa. Só que aí aconteceu algo ruim: uma safra boa. Pois é, a economia agrícola às vezes funciona de cabeça pra baixo.
Uma safra boa pode ser algo ruim quando começa a sobrar produto no mercado. Começou a sobrar tomate. E os preços afundaram – de volta para a faixa dos R$ 10; um valor além da linha vermelha, do ponto de vista dos agricultores. E tome mais prejuízo, mais caixa de tomate abandonada e mais frutos apodrecendo na fazenda, já que nem valia a pena colher.
E o o que aconteceu? Diminuíram mais ainda as áreas de plantio, claro. Pra que gastar dinheiro plantando o que não dá retorno? Em Goiás, por exemplo, reservaram 40% menos terras para o tomate. É do jogo. Isso diminuiria a oferta, faria o preço subir, e o lucro dos produtores voltaria.
Só que entrou um elemento totalmente inesperado nessa história: um ataque de bactérias.

Tudo isso numa realidade em que as áreas de plantio já estavam bem menores só podia dar numa coisa: o tomate de ouro. Ele ficou raro a ponto de o preço da caixa bater em R$ 150 nos centros de distribuição (dá R$ 6 o quilo, o que nas feiras e supermercados acaba virando R$ 10 fácil); um aumento de 1.775% comparado com 2010. Foi o que alimentou um momento histórico: a estreia dos hortifrutigranjeiros no mundo dos memes.
Mas ok. Foi uma situação atípica. E o tomate a preço de ouro é justamente quem vai trazer de volta o tomate a preço de tomate: vai estimular os produtores a aumentar as áreas de cultivo. E a tempestade ficará pra trás.
Mas não. Isso não vai ser a salvalção da lavoura.
A verdade é que só políticas econômicas desastradas conseguem causar inflações de dois dígitos – e a inflação dos alimentos fechou 2012 em 14%. Mas não espere que o governo assuma isso. Como escreveu Milton Friedman, meu economista preferido:
“Nenhum governo aceita que é o responsável por uma inflação. Sempre arranjam alguma desculpa – comerciantes gananciosos, sindicatos turrões, consumidores compulsivos, árabes, a chuva. Sem dúvida que comerciantes são gananciosos, sindicatos são duros, consumidores são compulsivos, árabes aumentam o preço do petróleo e, de vez em quando, chove mesmo. Todos esses agentes têm como produzir preços altos para certos itens; mas não são capazes de fazer isso com tudo o que existe. Eles até podem causar subidas e descidas temporárias na taxa de inflação. Mas não têm como dar início a uma inflação contínua. Por um motivo simples: nenhum desses supostos culpados pela inflação tem as impressoras que produzem aquilo que a gente carrega na carteira.”
Esse texto do Friedman tem quase 40 anos. E continua mais atual do que qualquer meme.
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