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Paula Fernandes: Minha vida na intimidade cabe somente a mim

A cantora Paula Fernandes (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA) 
A cantora mineira Paula Fernandes falou a ÉPOCA sobre como enfrenta o fato de ser uma celebridade, define seu estilo de cantar como “pop sertanejo”, cita suas influências e analisa sua voz. Ela possui uma voz grave de contralto, o que, curiosamente é incomum na música sertaneja – à exceção de sua antecessora, Roberta Miranda, com quem ela fez um dueto em “Majestade o sabiá”, de Roberta. Diz também que inveja a voz de Sandy, capaz de soltar agudos afinadíssimos. Leia outras perguntas em ÉPOCA desta semana. 
ÉPOCA – Como você lida com o fato de ter virado uma celebridade?
Paula Fernandes –
  Nunca desejei ser celebridade, e sim ser cantora e viver do meu trabalho. Meu trabalho é como qualquer outro, como o do advogado. A diferença é que trabalho com magia. Não vivo na fantasia, mas trabalho com ela. É difícil ser celebridade. Por mais que a gente se prepare, vivenciar a situação é totalmente diferente.


ÉPOCA – Qual a receita para fugir dos holofotes?
Paula – 
É ser autêntico. No meu caso, é meu estilo de vida. Não sou de balada, não sai barraco, não brigo com ninguém. Minha mãe me deu educação, não vou ficar falando mal de ninguém. Acho que é uma questão de educação. Não tenho necessidade de publicar grandes coisas. Eu tenho 2 milhões de seguidores no Twitter e 8 milhões de seguidores no Facebook. Eu divido com eles coisas que são importantes para mim. Por exemplo, o cultivo da minha horta. Isso não causa nenhum babado. A gente vive num tempo em que as pessoas trocam de namorados como trocam de roupa. Elas não cultivam as coisas simples. Eu vivo entre esses dois universos, tem dias que estou puxando a terra e penso gente, como é que pode? Na semana eu cantei com o Juanes lá em Miami. São esses extremos que me equilibram. Por isso eu divido isso com a moçadinha. Até nos momentos de me relacionar com alguém quero uma pessoa equilibrada, sensível, de cabeça boa que possa dividir comigo a minha intimidade. Minha vida pública não tem nada a ver com quem sou na intimidade.

ÉPOCA – Você passa esse autoconhecimento em suas músicas.
Paula – 
Sim. Eu hoje sou resultado dessa busca. É uma história longa. Eu havia morado em em São Paulo por 7 anos, em busca do sucesso. Acho que o problema se deu por causa dos muitos "nãos" que eu levei. Com 10 anos de carreira, não havia acontecido absolutamente nada. Talvez por problemas de família. Me tratei com psiquiatra, psicólogo, usei remédio de tarja preta. Tive o amor e o apoio da família. Foi então que entrei em uma fase mágica de autoconhecimento. Encarei minha depressão como uma oportunidade de me tornar uma pessoa melhor. Uma pessoa que sabe o que quer, sabe a cor, o que gosta de comer, o que quer da vida. Até então, era como se eu não existisse para mim mesma.
>> O Brasil é sertanejo

ÉPOCA – Você se reconhece nas novas modas sertanejas, como o sertanejo universitário?
Paula –
  Foi tanta a transformação do sertanejo que hoje eu sinto que está distante daquilo que eu canto, porque eu preservo características originais, como contar uma história da moda viola. E ainda acredito que o conteúdo não deva faltar mesmo se a música é mais agitada. Minhas canções mais dançantes não são apelativas. Têm uma mensagem divertida e levo para o lado da cantora de quermesse.

ÉPOCA – É um desafio mostrar o lado da mulher nesse gênero?
Paula –
É um desafio. As mulheres se identificam com meu trabalho. Elas me veem como representante delas, não como rival. Isso é importante porque eu sei que o público que vai em maior número aos shows e compra CD é o público feminino. No meu camarim, a maioria que aparece para me cumprimentar é mulher. Mas eu consegui algo raro: atingir homens e mulheres de 0 a 100 anos de todas as classes. Eu consegui conquistar o mais difícil: o respeito dessas pessoas.

ÉPOCA – Antes disso, como você era?
Paula –
Uma garota obediente, que seguia tudo o que os pais ditavam como verdade inquestionável. Embora eu tivesse personalidade, eu não exercitava tanto minha vontade. A partir dos 18 anos, as coisas mudaram. Foi difícil, mas foi a grande virada da minha vida. Desde então sei o que sou, o que quero e isso é um privilégio.

ÉPOCA – Que decisão você tomou nesse processo?
Paula –
Voltei a tocar e cantar em bares em Contagem e Belo Horizonte com um cachê de R$ 40 por show. Com o dinheiro, eu conseguia ajudar em casa, pagar minha faculdade de geografia e o tratamento psiquiátrico. Melhorei, voltei a cantar de novo e melhorei a vida.

ÉPOCA – A família ajudou?
Paula –
Demais. Minha mãe é uma guerreira. Moramos eu, meu irmão, minha mãe, minha prima e o cachorro, Lokinho, um maltês que é uma pessoa.

ÉPOCA – Você mora onde?
Paula –
Moro em Belo Horizonte, num apartamento e numa chácara nos arredores da cidade.

ÉPOCA – Hoje é mais fácil morar em Belo Horizonte e ter uma carreira nacional?
Paula –
Sem dúvida. Antes eu pegava ônibus e viajava 12 horas, fiz muito isso. Eu trabalhei em uma companhia de rodeio de São Paulo, junto com meus pais. Eu fazia a abertura dos grandes shows, muitas vezes eu cantava a Ave-Maria diante dos cavalos, essas coisas de rodeio. Viajei o Brasil todo.

ÉPOCA – Que importância os rodeios tiveram para sua formação?
Paula –
Eu me formei metade com as apresentações em rodeios e metade nos bailes. Bailes são a melhor escola que um artista pode ter. Nos bailes comecei a ter contato com o gosto real das pessoas. Em paralelo, meu trabalho como compositora começou a fluir.

ÉPOCA – E você já tinha um estilo diferente?
Paula –
Eu tinha muita personalidade. As pessoas me perguntavam com quem eu era parecida. Você quer ser cantora igual a quem? Eu tinha 9, 10 anos e parava para pensar. Eu respondia: eu quero cantar igual ao que eu canto. Desde sempre, nunca senti vontade de copiar ninguém.

ÉPOCA – Você tem estilo. Como você o define?
Paula –
Eu falo que sou pop rural, embora minha essência seja sertaneja. Eu me sinto muito pop. Ouço todo tipo de músico, adoro vestir preto e adoro heavy metal. É um universo grande que eu mostro no meu show: a mulher sensual com transparências, a menininha romântica cheia de babados e a mulher que eu sou hoje, a mulher sertaneja, com franjas, um adereço que voltou a ficar em alta.

ÉPOCA – Sua voz é bem grave. Você desenvolveu uma técnica para cantar?
Paula –
Nunca fiz aula de canto. Com o tempo, procurei um fonoaudiólogo. Tenho um preparador vocal, que me ajudou a desenvolver o diafragma. Sempre tive a voz grave, mesmo quando eu era pequena. Tecnicamente sou contralto profundo. Minhas notas são gravíssimas.

ÉPOCA – Voz grave é raro na música brasileira?
Paula –
  Pois é. E aí tem uma curiosidade que procurei saber. Os graves a gente já nasce com eles. Os agudos a gente desenvolve. Uma pessoa que só canta agudo não vai desenvolver os graves, porque os graves são de nascença.

ÉPOCA – Que você gosta de ouvir e que músicas influenciaram você?
Paula –
  Eu gosto de ouvir U2, Coldplay, John Mayer, Ana Carolina, Renato Teixeira e a Taylor Swift, com quem eu fiz uma parceria recentemente. Quem eu mais idolatro é Shania Twain. Na infância, Simon & Garfunkel, Bee Gees, Kevin Welch. Meu tio agrônomo tem uma grande discoteca em casa, e lá ouvi de tudo. Eu aprendia os acordes do violão vendo as fitas do meu tio. A primeira música que eu cantei no colégio foi “What a wonderful world”. Aos 9 anos, eu já fazia show.

ÉPOCA – Você tem influência de MPB?
Paula –
Menos. Eu ouvi muito em casa moda de viola, que chamam de o verdadeiro sertanejo: Tonico e Tinoco, Zilo e Zalo, Tião Carreiro, Irmãs Galvão. Mas eu não me continha. Eu queria abrir mais. Eu ficava frustrada de cantar porque moda de viola é cantada muito agudo e eu era contralto. Eu ficava com inveja da Sandy porque ela cantava com a voz agudíssima e eu não conseguia. 




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