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Roger Abdelmassih, vítimas relatam sofrimento e abuso do ex-médico

Vítimas aguardam chegada do ex-médico no aeroporto de Congonhas (Foto: Lívia Machado/G1)



Vítimas do ex-médico Roger Abdelmassih, preso nesta terça-feira (19) em Assunção, capital do Paraguai, relembram com revolta os estupros sofridos e se dizem aliviadas após anos em busca de Justiça. Veja abaixo os relatos:

Vanuzia Leite Lopes, criadora da associação de vítimas (Foto: Reprodução/Globo News)Vanuzia Leite Lopes, criadora da associação de
vítimas (Foto: Reprodução/Globo News)
Vanuzia Leite Lopes, criadora da associação de vítimas
"Eu estou curada. Ele está entrando preso e eu estou livre. Eu fiquei dois anos sem sair de casa, com pânico desse homem", contou.

"Ele me violentou quando eu estava sedada, só que eu acordei alguns minutos antes e consegui me desvencilhar e fazer o exame de corpo de delito. Fui a vítima que teve a prova cabal contra ele porque tive esse documento”, disse.

"Ele não vai sair (da prisão). Eu agi em legítima defesa hoje e esses anos todos para colocar ele aqui de volta. Ele destruiu vidas."

"Eu tenho nojo desse homem, tenho medo. Ele acabou com a minha vida e com a vida de milhares de mulheres. Seja bem-vindo ao inferno. Você não vai sair daqui, não tem ministro que vai tirar você daqui mais. Eu estudei direito, eu derrubo qualquer tese. Eu estudei direito para isso"
"Nós juntamos 300 documentos, mandamos para todos os veículos, para a polícia e fomos nós que conseguimos tudo. Contas de telefone, endereços, transferências bancárias. Faz três anos que eu converso com denunciantes, que eu conto a minha história, dizendo que ele fez sexo anal comigo, que ele me passou uma bactéria. Eu me humilhei".
"Não tenho medo que ele saia, ele não vai sair. Eu agi em legítima defesa hoje e esses anos todos para colocar ele aqui de volta. Nós vamos também na ONU representar como crime contra a humanidade porque ele misturou os nossos embriões com o de animais. Ele destruiu vidas"
"Ele disse uma vez que ele era o Deus aqui na terra. E agora pra onde ele vai é o inferno. Ele não é Deus lá não."
Yvany Serebenic, empresária (Foto: Reprodução/Globo News)Yvany Serebenic, empresária
(Foto: Reprodução/Globo News)
Yvany Serebenic, empresária
"Me paralisei (ao saber da prisão). Não sei se sinto fome, cansaço. Se ele não vai dormir, eu também não. Enquanto não vi as imagens não acreditei. Eu achei que ia ficar muito feliz, mas não conseguia imaginar a sensação. Agora o medo é dele não ficar preso."
"Eu quero que ele apodreça na cadeia. Que ele viva muito para ele poder apodrecer e pensar e pagar por tudo que ele fez com a gente. Nós vamos até o fim, vamos continuar lutando."
"Eu recebi de forma bastante satisfeita, com sensação de ter ajuda nisso. Nós, vítimas, contribuímos bastante com as denúncias. Recebíamos várias informações e íamos municiando a polícia. Eram informações de verdade, porque graças a ela a gente consegui desvendar esse paradeiro misterioso."
“Logo que denunciei recebi telefones dizendo que iam acabar comigo, iam me destruir. Que eu ia pagar. Foram buscar diagnóstico meu antigo para saber se eu tinha problema de engravidar. Tentavam alegar que eu não tinha procurado tratamento com ele.”
”Apelo para a Justiça para que ele fique realmente preso, que ele viva muito e pague dentro da prisão pelos crimes que cometeu. Se mais uma vez esse homem for solto quem vai viver foragida somos nós.”
Maria Silvia de Oliveira Franco, artista plástica (Foto: Reprodução/Globo News)Maria Silvia de Oliveira Franco, artista plástica
(Foto: Reprodução/Globo News)
Maria Silvia de Oliveira Franco, artista plástica
"Todo mundo que foi vítima dele, não poder ter uma sensação melhor do que essa justiça sendo feita. Eu tinha certeza que isso ia acontecer."
"Ele destruiu famílias, destruiu sonhos de mulheres, casamentos e familias. (...) Perdi parte da saúde, fiquei doente, não tive filho, não consegui engravidar, minha vida ficou caída, me separei do meu marido, fiquei um ano, dois anos sem ninguém encostar em mim."
“Ele me fez abortar com quatro meses, sozinha em casa, sem amparo médico. Ele não me deixou ir para o hospital. Ele mandou eu pegar o meu feto e colocar na geladeira, porque ele queria analisar o meu feto. Esse homem é um monstro. Ele pegou os meus embriões, ele implantou em outras mulheres, eu tenho filhos por aí. A gente está mostrando o rosto para essas crianças, esses adolescentes, para nos encontrarem um dia.”
 
Helena Leardini (Foto: Reprodução/Globo News)Helena Leardini (Foto: Reprodução/Globo News)
Helena Leardini
“Ele me agarrou e beijou à força. Eu estava lúcida. Eu estou me sentindo emocionada pelas meninas, mas é alívio. É difícil encarar um homem que fez o que fez com essas pacientes."
“A defesa dele dizia que eram mulheres frustradas que não conseguiam ter filhos que estavam entrando contra ele e que poderiam estar confundindo as coisas. Ele me agarrou e eu estava lúcida, e eu engravidei de gêmeas dentro da clínica dele, então, eu derrubo a defesa dele. Não tem defesa. Ele é safado, ele é estuprador, ele é um monstro sim.”
“É difícil você encarar um homem que fez o que ele fez. Nós sabemos de detalhes do que ele fez com mulheres que é terrível. Pacientes que retalharam as coxas porque era onde ele pegava, mulheres que apanharam dos maridos, que foram abandonadas.”
“Nós estamos aqui dizendo que agora é a nossa vez. Nós nos juntamos e conseguimos prender esse safado.”
"A gente não quer o dinheiro dele, a gente quer justiça. Ele foi condenado a 278 anos de prisão e a gente quer ele preso."
Teresa Cordioli, vítima de Roger na década de 70 (Foto: Lívia Machado/G1)Teresa Cordioli, vítima de Roger na década de 70
(Foto: Lívia Machado/G1)
Teresa Cordioli, escritora, assediada pelo médico em 1970, aos 18 anos, quando Roger Abdelmassih era residente em um hospital em Campinas.
“Eu tive uma crise de cólica renal, e meus pais me levaram para Campinas, no INPS da época. Eu fui atendida por ele (Roger), que me encaminhou para o hospital e fez a internação. Já no consultório, ele foi me ajudar a deitar, e eu senti que ele estava excitadíssimo. Fiquei assustada, mas achei que fosse algum aparelho de médico. Fui internada e só ele entrava no quarto. Ele não deixa ninguém mais ser internada junto comigo. Só deixou uma mulher cega e disse que ele era esperto. Ele erguia minha roupa, me manipulava. Eu estava de sonda, com soro nos dois braços. Ele sugava meu seio, lambia as partes, queria que eu fizesse sexo oral, esfregava o membro no meu rosto." Nessa época, Roger tinha 28 anos, e era médico-residente.
Em uma segunda ocasião, novamente por problemas renal, Teresa voltou a ser internada no mesmo hospital e foi atendida por Roger. “Eu não contei para meus pais, irmãos, de medo, vergonha. Na segunda vez os avanços eram bem maiores, ele queria até comprar minha virgindade. Ele tentou me tirar do hospital, falou que ia me levar", recorda.
Teresa diz que fugiu do hospital acompanhada de uma amiga, com medo de ser sequestrada por Abdelmassih. “Corremos tanto, o medo de encontrar com ele. Não assinei alta até hoje. Fugimos do hospital”, revela.
Durante muitos anos, ela acompanhou o crescimento profissional do médico calada. Só teve coragem de se expor publicamente em 2009, após ouvir as declarações de Abdelmassih na imprensa. "Ele falava que as mulheres que o denunciaram não tinham rosto e estavam todas dopadas. Eu não estava dopada", afirma. 
"Eu vi a ascensão e a caída dele, de camarote. E aplaudindo. O maior estupro foi feito pelo (ministro do do Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, que o soltou. Aí nós criamos mais força na busca", relata.
Nesta terça, Teresa tentou ir até o aeroporto para assistir o médico ser levado para o presidio. A escritora reside em Sumaré, no interior de São Paulo, e não conseguiu chegar a tempo. À noite, porém, se reuniu com as demais vítimas na casa de Helena Leardini.
“A sensação não é nem de alegria e nem tristeza. É de Justiça. Eu perdi muitos anos da minha vida com medo, angustia, vergonha, nojo de beijo, daquela baba fedida, ele fede. Só fui me casar com 26 anos, sem nunca ter dito relação. Foi muito difícil.”
Cristina Silva, vítima de Roger Abdelmassih em 98 (Foto: Lívia Machado/G1)Cristina Silva, vítima de Roger Abdelmassih em 98
(Foto: Lívia Machado/G1)
Cristina Silva - vítima de Roger em 1998. "Fiz as três tentativas, mas no meu caso não houve o estupro na sala de sedação. Ele me assediou mesmo na consulta, já logo no início. Tentei me desvencilhar, ia acompanhada da minha mãe, do meu marido, de uma amiga", diz ela que manteve o drama em segredo pelo mesmo receio relatado pelas demais mulheres.
Após o tratamento, Cristina acionou o Conselho Regional de Medicina. "Mandei uma carta ao CRM (Conselho Regional de Medicina) porque ele cometeu um erro comigo. Eu tinha uma série de problemas hormonais e não poderia ter feito o tratamento. Ele ignorava todas as vezes que questionávamos sobre isso. Ele também vendia medicação na clínica e tirava a oportunidade de a gente comprar em outro lugar. Além do assédio. O CRM acatou e abriu uma sindicância. Isso foi em 1999. Passou anos. Não tinha como eles acreditarem em mim. Eu não tinha celular, recurso de gravação.”
Para ela, o médico destruiu seu desejo de ter uma família. "Primeiro que o sonho que eu tinha, ele vende sonhos, mas visa lucro. Ele usa até isso para poder agir dessa forma crápula. Eu não tive os bebês como ele havia prometido."
Cristina esteve no aeroporto e também comemorou a prisão do ex-médico. "A sensação é de vitória, embora em 2011 também tenha sido vitória. Esperamos que dessa vez não tenha habeas corpus." 

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