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Uma nova geração de homens se envolve na vida dos filhos: "Tem que participar"

Fabrício Escandiuzi, pai brinca com a filha Luísa (Foto: Caio Cezar/ÉPOCA)
Se a filha chora durante a madrugada, quem se levanta para contar gotas de remédios é ele. Se a menina cai ao tentar os primeiros passos, ele estará lá para ampará-la. Se ela quiser comentar sobre a discussão que a boneca Emília teve com outra colega de pano, ele que se vire e mergulhe na obra de Monteiro Lobato. Essa é a rotina de Fabrício Escandiuzi, de 38 anos, blogueiro do Diário do Papai. Ele e a mulher, a analista de franchising Gisele, de 40 anos, decidiram adotar após um tratamento de fertilidade malsucedido. Mas a situação doméstica deles não é a tradicional. Enquanto Gisele sai de casa para trabalhar, Luísa, de 1 ano e 7 meses, fica sob cuidado integral do pai. Diariamente.
Pais como Fabrício trocam as fraldas, dão mamadeira na madrugada, levam ao pediatra e participam ativamente da formação de suas crianças. Para esses homens criou-se a alcunha de “pais 2.0” – eles constituem uma versão recente e melhorada do pai convencional, aquele que trazia o salário no fim do mês, tinha horários desconectados da rotina da família e não se ocupava em nada da rotina dos filhos.

Fabrício conta que foi pai  “no susto”. Na fila da adoção, ele e Gisele foram informados de um bebê que nasceria dali a 20 dias. Toparam sem saber se era menino ou menina. “Chegamos ao abrigo e a assistente social nos recebeu. Caminhamos por um grande corredor – nunca vou me esquecer disso – e, em seguida, ela parou diante de uma salinha.  ‘Vai lá e encontra a tua filha’, disse. E assim conhecemos Luísa.” Como Fabrício trabalhava como freelancer e Gisele não tinha flexibilidade de horários, ele decidiu organizar a vida em torno da criança.  “Tem gente que acha muito esquisito. Quando vou ao médico ou ao cinema, causa espanto o fato de Luísa estar sob meus cuidados, e não da mãe. Mas adoro ter a companhia dela, trabalhar com ela, dedicar horas do meu dia para brincarmos. Luísa mudou minha vida. É ela que cuida de mim”, diz Fabrício.
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O que os homens e as mulheres brasileiras pensam sobre os pais 2.0? Uma pesquisa realizada pelo site de relacionamento ParPerfeito, e divulgada por ÉPOCA com exclusividade, mostra uma realidade curiosa. Homens e mulheres pensam a mesma coisa sobre a divisão de tarefas na criação dos filhos. Acham que ela deve ser igualitária, que as mudanças sociais influenciaram os papéis de mães e pais e que existe uma “nova masculinidade”, definida pela maior participação do homem no cuidado com a casa e com os filhos. Na prática, a situação é outra.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mulheres e homens se igualam na jornada semanal de trabalho fora de casa – 40 a 44 horas. Só que elas ainda precisam dedicar 25 horas de trabalho semanal em atividades domésticas, enquanto seus companheiros só trabalham dez horas semanais em casa. Outra pesquisa, da Data Popular, publicada em 2013, mostra que só 5% dos homens casados cozinham ou lavam louça, outros 5% limpam móveis e varrem e mísero 1% lava e passa roupa.

O que ocorre nas sociedades modernas é um fenômeno paradoxal. De um lado, as mulheres conquistam espaço no mercado de trabalho e voz nas democracias – o que lhes garante uma situação de igualdade inédita com os homens. De outro lado, alguns outros direitos, por serem exclusivos das mulheres, acabam reforçando os papéis tradicionais. Ao redor do mundo, o suporte financeiro e legal para novas mães nunca esteve tão avançado. De acordo com aOrganização Internacional do Trabalho (OIT), 85% dos países possuem ao menos 12 semanas de licença-maternidade, pagas pelo governo, pelo empregador ou a partir de uma combinação de ambos. É um avanço que contribui para o bem-estar de crianças, mães e da família em geral.
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Ao mesmo tempo, não há nenhuma recomendação da OIT para que os países adotem a licença-paternidade. Menos da metade dos países tem esse tipo de direito e em apenas seis deles a licença é superior a 15 dias: Alemanha, Canadá, França, Japão, Reino Unido e Suécia. E são os empregadores, não o Estado, que arcam com a conta. Ao criar benefícios generosos para a maternidade e nada equivalente para a paternidade, legisladores e empregadores do mundo inteiro reforçam a ideia tradicional de que a responsabilidade por criar os filhos cabe quase exclusivamente às mães. Por isso, pode-se afirmar que as mulheres são tão vítimas quanto beneficiárias das políticas de licença-maternidade. “É impossível ter uma efetiva igualdade de gênero dentro de casa com a licença à paternidade a cinco dias e a licença à maternidade em até seis meses”, afirma  Mirian Goldenberg, antropóloga e autora do livro Homem não chora, mulher não ri. O psicólogo Márcio Dionízio, do Laboratório de Estudos da Família, Relação de Gênero e Sexualidade, acha o mesmo: “Já que falamos de responsabilidade compartilhada, as leis também devem se adequar a essa realidade. É preciso que as licenças tenham a mesma duração”.
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Na ausência de longas licenças-maternidades, e de maridos que possam asusmir as tarefas domésticas, muitas mulheres se veem forçadas a escolher entre a família e a profissão. É o caso da engenheira civil Flávia Ferrari, de 39 anos. Ela fez pós-­graduação em marketing e ganhou uma bolsa de MBA em Milão. Aos 28 anos, sentiu vontade de ser mãe e engravidou dois anos depois, mas percebeu que não poderia equilibrar a criação dos filhos e cumprir as exigências do trabalho. “Eu tinha uma carreira de executiva, mas resolvi abrir mão de tudo isso pela maternidade. Adorava meu trabalho, mas o tempo que eu passava em casa era escasso”, diz Flávia.
 
Flávia Ferrari com os filhos Beatriz e Fernando  (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Depois da maternidade, quando a mulher volta ao mercado, muitas vezes descobre que perdeu perspectivas de carreira. Ela ganhava menos e ganha, depois, ainda menos. Estudos na Alemanha mostram que a cada período de licença-­maternidade a mulher reduz seu salário entre 6% e 20%. Na França, a relação fica entre 7% e 17%. O efeito é ampliado quando a licença se combina com políticas que encorajam o meio período de trabalho. “As mulheres carregam de maneira desigual o ônus da maternidade. Há discriminação nas empresas, especialmente com mulheres jovens, na fase reprodutiva”, diz Carmen Pires Migueles, professora da Fundação Getulio Vargas/Ebape.

Para reduzir esse ônus e ajudar os homens que desejam envolver-se com a criação de seus filhos, alguns países tentam aumentar os benefícios da paternidade. No Japão, a licença pode chegar a um ano, com remuneração mínima de 60%, e é permitido dividi-la entre as duas partes do casal. O governo que mais se esforça nesse sentido é o da  Suécia. Lá, os homens têm 16 meses de licença paga, com 80% do salário. Quando uma criança nasce, o pai e a mãe têm os mesmos direitos. Curiosamente, a família pode escolher a época de tirar a licença até a criança completar 4 anos. Segundo dados do governo, 85% dos pais suecos tiram a licença-paternidade. Aqueles que não o fazem são questionados pela família, pelos amigos e por colegas de trabalho. A Suécia talvez ofereça um vislumbre do futuro. Birgitta Ohlsson, ministra de Assuntos Europeus do país, recentemente declarou: “Machos com valores de dinossauro já não chegam à lista dos dez homens mais atraentes nas revistas femininas”. 

O Brasil caminha nessa direção, mas lentamente. Em março, o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) apresentou uma proposta de emenda à Constituição que propõe que o pai possa ficar 30 dias afastado do trabalho para os cuidados do filho recém-nascido. “Esse é um avanço importante para a sociedade moderna, e os empresários precisam entender essa necessidade. Se o pai ficar mais tempo com o filho no primeiro mês, a relação custo-benefício compensará o encargo”, diz o senador. As medidas simbolizam não só uma divisão na tarefa cotidiana, mas também uma quebra de tabus sobre a participação masculina na família. “O país ainda precisa de políticas públicas que corroborem essas transformações sociais. As mulheres querem se livrar da carga que recai apenas sobre elas, e os homens querem participar mais, mas não se veem com possibilidade”, diz Mariana Azevedo, do Instituto Papai, uma organização que atua para eliminar desigualdades.
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Uma lei que seja mais justa na divisão de tarefas é demanda também dos pais que sonham em ficar mais próximos aos filhos. É o caso do cabeleireiro Weverton Martins dos Santos, de 34 anos. Ele diz que sempre quis ser pai. Por cinco anos, Santos e sua mulher, Deise Garcia, tentaram ter um filho, até que um dia o sonho se realizou. Quando Rafael nasceu, o empresário decidiu, em comum acordo com a mulher, que ela passaria a trabalhar no salão de beleza da família somente aos finais de semana, para cuidar do filho durante a semana. Isso fez com que ela ficasse mais tempo com o filho do que o pai.  “Hoje, trabalho de dez a 12 horas por dia. É difícil ficar tanto tempo longe dele. Para amenizar a falta, procuro brechas em meu expediente para ir vê-lo e levá-lo ao médico. Em dias mais tranquilos, trago o Rafael para o trabalho.”
 
Weverton Martins dos Santos com o filho, Rafael (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)
Mesmo quem não é dono de seu próprio negócio consegue ajustar os horários. Clodoaldo Silva de Araújo, de 45 anos, trabalha como supervisor de vendas. Ele é pai de Lorenah, de 4 anos, e Luiz Henrique, de 2. É casado com Elismara, de 38 anos, vendedora de carros. “Meu pai nunca teve essa relação comigo, eram tempos diferentes. A gente conversava apenas esporadicamente. Por isso, vejo em minha proximidade com meus filhos uma coisa muito séria. Ela me realiza bastante”, diz Clodoaldo. Por causa dos horários e demandas do trabalho dela, dividir as tarefas entre a mulher e ele é essencial à rotina. “Ela entra mais cedo, então sou eu que preparo a bolsa de meus filhos para a escola. Também os acordo, faço o café e os levo para a escola. À noite, quando chego em casa, sempre brinco, dou banho e converso sobre o que fizeram no dia. Muitas vezes os faço dormir. Não há nada que eu não faça!”, diz Clodoaldo. “Há muitos pais que fazem tudo sem o controle feminino, se dedicando de maneira integral aos filhos”, diz Mirian Goldenberg. “É uma visão antiquada associar pais participativos à perda de masculinidade. Eles são protagonistas nessa relação, não só ajudantes.” Uma divisão mais equilibrada de tarefas deixaria a todos mais felizes – as mães, os pais 2.0 e, principalmente, os filhos. 
Clodoaldo com os  filhos Luiz e Lorenah para ir  à escolinha (Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA)





Gráfico sobre opiniões de homens e mulheres em relação à igualdade de direitos e deveres  (Foto: época )

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