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Até onde ele vai? Jorge Paulo Lemann, a sede sem fim do imperador da cerveja

Jorge Paulo Lemann  (Foto: Alan Marques/Folhapress)

O empresário Jorge Paulo Lemann recorre a uma ideia simples para expressar sua filosofia, refinada em mais de quatro décadas de sucesso nos negócios. “Ter um sonho grande dá o mesmo trabalho que sonhar pequeno. Então, sonhe grande”, diz. Há duas semanas, Lemann – ou Jorge Paulo, como é mais conhecido – mostrou de novo que seu discurso não é mero palavreado motivacional. Na quarta-feira (11), após dois meses de negociações formais e quatro ofertas rejeitadas, a SAB Miller, segunda maior fabricante global de cerveja, aceitou ser comprada pela número um do mundo, a AB InBev, por US$ 108 bilhões. Lemann é um dos controladores da AB InBev, dona de marcas como Budweiser, Stella Artois, Brahma e Antarctica.

A aquisição, caso se confirme, será a terceira maior da história e a maior já registrada no Reino Unido, onde fica a sede da SAB Miller, dona da marca Miller. O negócio assusta parte dos bebedores de cerveja mundo afora, porque a companhia resultante da compra concentraria 28% da produção global. Entre os possíveis resultados ruins da concentração de mercado estão aumento de preços, queda de qualidade e padronização de sabor das cervejas. Autoridades econômicas ainda terão de avaliar a aquisição. As duas companhias precisarão de aprovação nos Estados Unidos, no Reino Unido, na China e em outros países para avançar.
Seja qual for o resultado da negociação, Lemann, aos 76 anos, escreve mais um capítulo de uma das mais impressionantes histórias deempreendedorismo do Brasil em todos os tempos. Ele garantiu essa trajetória ao se cercar por outros executivos brilhantes, como os parceiros de negócios Marcel Telles e Beto Sicupira, que o acompanham há décadas (no mercado, eles são conhecidos como “o trio”). Também fazem parte desse círculo Carlos Brito, hoje presidente da AB Inbev, Roberto Thompson e Alex Behring, sócios fundadores, com o trio de veteranos, da empresa de investimentos 3G Capital. Na arena global, a 3G se tornou uma força admirada e temida. Conseguiu o controle das fabricantes de alimentos americanas Kraft e Heinz (compradas em 2015 e 2013), da rede canadense de café e donuts Tim Hortons (comprada em 2014) e da rede de lanchonetes americana Burger King (comprada em 2010). Por causa desse avanço implacável, no início do ano, a revista Fortune publicou uma reportagem com um título provocador para o leitor americano: “Esse trio brasileiro virá a controlar tudo que você come e bebe?”. Com os sócios, Lemann tem também participações importantes nas Lojas Americanas e no site Submarino – além da AB InBev.
 
O negócio ainda tem de ser aprovado em diversos países. Mas Lemann e os sócios continuam a fazer história
A trajetória de Lemann é um sinal estimulante de que é possível prosperar no país sem depender das benesses de Brasília. Ela começou com o Garantia, símbolo de uma era de ouro dos bancos de investimento nacionais, que ele comprou com cinco sócios em 1971. Ao contrário de muitos novos-ricos, Lemann não gosta de ostentar riqueza. Seu estilo é discreto, de poucas palavras. Nos negócios, seu principal legado é uma cultura empresarial rígida, fácil de entender e difícil de copiar, que criou e ajudou a espalhar pelas empresas que controla desde o Garantia. Ela se baseia em controle obsessivo de custos, definição de metas de desempenho audaciosas e meritocracia extremada, numa extensão que parece brutal à maioria das organizações no Brasil. A filosofia se inspira no sistema aperfeiçoado pelo banco americano Goldman Sachs, em que o funcionário se torna sócio da empresa, e nas técnicas de gestão de Sam Walton, fundador do Walmart, de quem Lemann foi amigo. Essa filosofia o levou ao primeiro lugar na lista dos mais ricos do país e ao 26o lugar no ranking global da revista Forbes, com uma fortuna pessoal estimada em US$ 25 bilhões. Mas ele não se gaba desse resultado. “O dinheiro é apenas uma forma de medir se o negócio está indo bem ou não, mas o dinheiro em si não me fascina”, afirma.

A voracidade de Lemann para os negócios já o levou a tropeçar. Em 2009, ele e os sócios Telles e Sicupira foram acusados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de usar informações privilegiadas a fim de aumentar a fatia do bloco de controle na Ambev. Para evitar que o processo fosse a julgamento na CVM, o trio fez um acordo com as autoridades e pagou multa de R$ 18,6 milhões. Em 1997, o Garantia quase quebrou com a crise asiática. As perdas, admitidas em US$ 110 milhões pelo banco e estimadas pelo mercado em até US$ 500 milhões, foram decisivas para a venda da empresa no ano seguinte. Isso selou a saída de Lemann do mercado financeiro e a sua dedicação exclusiva ao setor produtivo – um caminho que ele já ensaiava desde a compra das Lojas Americanas e da Brahma, na década de 1980.
>> Por que os milionários brasileiros não doam suas fortunas a universidades?

Filho de pai suíço e de mãe baiana com ascendência suíça, Lemann nasceu e foi criado no Rio de Janeiro. Seu pai era dono da fábrica de laticínios Leco (abreviatura de Lemann & Company). Lemann teve uma juventude confortável e morou numa casa ampla no Leblon, na Zona Sul carioca. A proximidade da praia fez dele um dos pioneiros do surfe no país, mas ele se destacou mesmo foi no tênis, que começou a praticar aos 7 anos. Com dupla cidadania, defendeu a Suíça e o Brasil na Taça Davis, foi cinco vezes campeão brasileiro e chegou ao topo do ranking mundial três vezes como veterano. Ele afirma que, por influência da mãe, deixou o surfe e o tênis para estudar em Harvard, nos Estados Unidos, onde se formou em economia, em 1961. Pai de seis filhos – três do primeiro casamento e três do segundo –, Lemann vive num subúrbio de Zurique, na Suíça, desde 1999, com a mulher, Susanna Lemann. Decidiu mudar-se para lá depois de uma tentativa de sequestro contra seus filhos em São Paulo. Costuma acordar às 5h30 e vai dormir antes das 10 da noite. Segue um cardápio saudável, à base de salada, carnes brancas, legumes e frutas. Come pouco e só bebe água mineral.
Uma fábrica da SAB Miller na República Tcheca (Foto:  Poder)
No prefácio do livro Sonho grande, da jornalista Cristiane Correa, que conta a história de Lemann, Telles e Sicupira, o consultor Jim Collins, guru mundial de gestão, não poupa elogios ao trio. “Eles estão no mesmo nível de visionários dos negócios como Walt Disney, Henry Ford, Sam Walton, Akio Morita (fundador da Sony) e Steve Jobs(fundador da Apple)”, afirma. Nos últimos 25 anos, Lemann se empenha em deixar outro legado, na educação. Atualmente, sua atuação é visível na Fundação Lemann, cujo objetivo é melhorar a educação pública no Brasil, na Fundação Estudar e na Ismart, que oferecem bolsas de estudo. Em 2013, ele criou um fundo que investe em escolas e empresas de tecnologia voltadas para a educação, hoje com patrimônio de R$ 120 milhões. Sorte nossa se ele conseguir levar, para a educação, ao menos uma fração da competência exibida no mundo dos negócios.

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