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Saída de uma festa: "Um policial militar executou meu filho"

Reprodução de Brian Cristian Bueno Silva que foi assassinado por um PM em ourinhos (Foto: Reprodução)

Valdineia Pontes, a Neia, acordou num sobressalto na madrugada de quinta-feira, dia 9 de junho. "Foi um presságio", diz. Eram 3 horas da manhã. Ligou, então, para Fátima, sua companheira há 12 anos. Fátima tinha mesmo algo a contar, mas preferiu falar pessoalmente. Instantes antes do telefonema de Neia, Fátima recebera outro, sobre Brian, o filho mais velho de Neia que Fátima ajudou a criar desde os 12 anos do menino. "Nunca vou esquecer ela dizendo 'o Brian tomou um tiro'". Avisado, o irmão de Neia acompanhou as duas mulheres até a Santa Casa de Ourinhos, cidade ao lado de Santa Cruz do Rio Pardo, onde Brian estava internado. Na recepção do hospital, quando pediram notícias de Brian, a enfermeira lançou um olhar indecifrável. Passou a mão no telefone e disse: "O médico quer falar com vocês". Do médico, primeiro Neia ouviu o caminho que a bala,disparada por um policial militar, percorreu no corpo de Brian. Depois, ouviu: "Brian chegou aqui sem vida".

Na semana da morte de Italo, o menino de dez anos morto por um policial militar na capital de São Paulo, invadiu o noticiário nacional, a história de Brian, de 22 anos, passou despercebida. Na madrugada de quinta-feira (9), Brian e quatro amigos foram à Feira de Agropecuária e Industrial (Fapi) de Ourinhos, a "maior feira de portões abertos do Brasil" – como consta no slogan do evento. Este ano, o 50º da feira, a estimativa era de que passasem por lá, em dez dias, quase 1 milhão de pessoas. Os rapazes tentaram, sem sucesso, acompanhar o show da dupla Henrique e Juliano. "Mas não conseguimos chegar ao palco por conta da multidão", diz um dos amigos de Brian, Fabricio, que pediu para não ter o nome completo divulgado. Mesmo assim, todos comemoraram o novo emprego de Brian, numa fábrica de biscoitos, no período noturno. Brian planejava usar parte do salário, de R$ 1 mil, para trocar de carro – queria comprar uma Parati – e ajudar a mãe com as contas da casa.Brian começaria o novo trabalho na quinta-feira.


O silêncio sepulcral de Fabricio, de 19 anos, fala mais sobre a morte do amigo que suas poucas palavras. Com os olhos grudados no seu depoimento feito na Ouvidoria da Polícia Militar, Fabricio, entre uma palavra e outra, engole seco e tenciona o maxilar. Falta lucidez para falar sobre algo que ele ainda não entendeu. Aconteceu na saída da Fapi, por volta das 2 horas da manhã. Na estrada de mão dupla ao lado da feira, tomada por carros e gente, o carro do pai de Fabricio era mais um num trânsito sem fim. Em determinado momento, Brian, conhecido por ser o brincalhão do grupo, esticou o braço para fora do carro, pegou um dos cones alaranjados posicionados na estrada, levantou o objeto e devolveu-o ao chão "para provar a lentidão do trânsito". Policiais militares parados na estrada, a poucos metros do carro dos meninos, deram sinal de luz para Fabricio parar no acostamento. Um policial parou ao lado do motorista. O outro, "irritado", diz Fabricio, chegou puxando Brian, pela janela do passageiro do veículo, para fora do carro. 


O zumbido da bala permanece audível na memória de Fabricio. O tiro queimou o cinto de segurança do banco do passageiro, o moletom branco que Brian vestia e o centro da camisa polo – como se a bala tivesse entrado pelo peito, não pelo pescoço. "É porque o policial puxou muito a camisa dele", explica. A bala ficou alojada no banco do motorista. O corpo de Brian, amparado pelo cinto, pendeu para frente. Fabricio chacoalhou o amigo. "Só ouvi um suspiro", diz. Todos saíram do carro aos gritos. Os policiais afastaram os quatro da cena e chamaram uma ambulância que, por coincidência, passava no local com um rapaz em coma alcoólico. Sem condições de atender Brian, outra equipe fez o socorro. Enquanto Brian era levado para a Santa Casa, os amigos foram prestar depoimento. Quando perguntaram de Brian, os policiais respondiam que ele ia ficar bem e que estava sendo operado. Brian nunca entrou numa sala de cirurgia.  
 
Valdineia Pontes  mãe do menino Brian morto por PM em Ourinhos (Foto:  )
Desde aquela quinta-feira, o caçula de Valdineia, de 19 anos, dorme no quarto do irmão com Serafine, a gata de Brian – ele tinha resgatado outros cinco. A mãe, mototaxista, não voltou a trabalhar e só retorna para casa à noite "para dormir e não pensar". Passa os dias rememorando a madrugada que levou o filho em depoimentos."Um policial militar executou meu filho", diz. "Deve ser julgado porhomicídio culposo", afirma, na linguagem penal recém-aprendida. "Se meu filho tivesse matado um policial, estaria preso. Por que o policial que matou meu filho não está?"

A legislação penal brasileira permitiu que os policiais investigados fossem transferidos das ruas para serviços administrativos na Corregedoria da Polícia Militar, mesma instituição que vai investigá-los sobre o crimeOs policiais serão investigados por homicídio e subtração de provas, diz o advogado Julio Cesar Fernandes Neves, ouvidor da PM de São Paulo. Há dois dias, a Polícia Civil de Ourinhos conseguiu recuperar imagens da abordagem ao carro e a arma usada pelo policial.

Mais improvável que o suporte dos moradores da pequena Santa Cruz do Rio Pardo, que estão organizando uma marcha na cidade com direito a camisetas personalizadas, foi a mensagem de solidariedade que Neia recebeu, via celular, da Associação de Delegados de Polícia de São Paulo. "Ofereceram apoio e disseram que é um absurdo o que aconteceu com meu filho", afirma. A história mostra que a justiça almejada por Neia pode levar anos para chegar – isso se os policiais forem considerados culpados. "Em média, duas mortes por dia são provocadas por policiais em São Paulo. A maioria dos processos é arquivado", diz o ouvidor Júlio Cesar Neves. 
O moletom branco e a camisa polo que Brian usava no dia, já lavados pelo irmão de Neia em razão do mau cheiro de sangue, estavam no porta-malas do carro que trouxe Neia de Ourinhos para São Paulo na terça-feira, dia 14, quando ela depôs na Ouvidoria. Ela só descobriu quando desembarcou. Naquele mesmo dia, ela viu, pela primeira vez, as últimas peças de roupa que o filho vestiu.  

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