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Você paga, eles não: Maracanã gasta milhões com amigos de governador e cartolas



Palco da final da Copa do Mundo e reformado por R$ 1,3 bilhão de dinheiro público, o Maracanã privado ainda convive com os problemas de quando era administrado pelo Estado. Levantamento feito pela ESPN mostra que as empresas escolhidas para a prestação de serviços como segurança, limpeza, orientação de público e colocação de grades são de pessoas ligadas a políticos do Rio ou da Federação de Futebol do Rio, a Ferj.Empresas que cobram preços mais altos que o mercado, o que justifica, em parte, o prejuízo de R$ 46 milhões do Consórcio Maracanã, acumulado desde o início das operações da concessionária no estádio. Além dos novos donos do Maracanã, clubes como o Flamengo veem seus gastos aumentarem e suas receitas diminuírem. Somente ao rubro-negro, segundo cálculos do clube, este modelo custou R$ 8 milhões a mais do que o que teria sido gasto em outros estádios, já no "Padrão Fifa", como o Mané Garrincha, por exemplo.
Entre os fornecedores levantados pela reportagem está a Sunset Vigilância e Segurança LTDA. A empresa é dirigida por Anderson Fellipe Gonçalves, o coronel Fellipe, ex-chefe da segurança pessoal do ex-governador do Rio Sérgio Cabral. O oficial, que foi braço direito de Cabral durante os últimos quatro anos, também dirige a empresa que faz a limpeza do Maracanã, a Sunplus Sistemas de Serviço LTDA. O Maracanã foi concedido à iniciativa privada pelo ex-governador, em um processo polêmico que enfrentou dezenas de manifestações populares, além de questionamentos da Defensoria Pública da União e do Ministério Público do Estado.
O coronel fundou a empresa em 2006, como mostram documentos obtidos pela reportagem. Na época, o capital social era de R$ 120 mil. Em 2013, o oficial já não constava entre os sócios, época em que o capital já somava R$ 1,2 milhão. Em uma das movimentações na Junta Comercial, em 2013, os novos sócios pediam pressa para o registro dos documentos, pois "a empresa participaria de uma série de licitações".
Reprodução/ESPN
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O oficial nega que tenha participação na empresa. Mas, mês passado, a reportagem recebeu um cartão de visitas do policial em que ele se apresenta como diretor da companhia. Na quarta-feira 29 de maio, a reportagem ligou para a sede do grupo, na Tijuca, e a atendente disse que o coronel ficava na sede do Leblon e que mais informações poderiam ser dadas pela diretoria. Além disso, o jovem oficial pode ser visto em todo dia de jogo, à beira do gramado do Maracanã.
Com a saída do ex-governador do Rio Sérgio Cabral para que Luiz Fernando Pezão, candidato à sucessão do governo, assumisse, o coronel Fellipe também deixou o governo. Foi cedido para a Assembleia Legislativa do Rio.
A Sunset teve seu primeiro contato com segurança de estádios na Copa das Confederações, da Fifa, ano passado. O grupo também fará a segurança da Copa do Mundo para a entidade. O ex-governador Sérgio Cabral também foi procurado pela reportagem. Por meio de sua assessoria, ele informou que a escolha da empresa de segurança é responsabilidade do contratante.
Reprodução ESPN Brasil
A atuação dos stewards (de laranja) no auxílio aos torcedores
A atuação dos stewards (de laranja) no auxílio aos torcedores 
Família de vereador
Outra marca visível do Maracanã privado é o serviço de orientação de público. Passam todo o pré-jogo com megafones em riste, ao redor do estádio, oferecendo ajuda aos torcedores. A empresa contratada é a Entreter Festas e Eventos LTDA. Um dos sócios é Paulo César Cupello, irmão de Carlos César Cupello, o Tio Carlos, vereador do Rio. A empresa foi fundada por ele em 2003. Atualmente, o parlamentar não faz mais parte do quadro de sócios. Ele afirmou à reportagem que não tem qualquer participação na empresa de sua família e que sua história com o entretenimento vem muito antes de sua atuação como vereador.
Em grande número, os orientadores e os "stewards", como são chamados os vigilantes do Maracanã, custam caro à concessionária. De acordo com balanço financeiro publicado em março, desde o início das operações do consórcio, após a Copa das Confederações, o estádio pagou R$ 17 milhões aos dois serviços. O valor é R$ 4 milhões a mais que as duas maiores receitas somadas, aluguel e bilheteria, que renderam R$ 13 milhões.
Os valores exatos dos contratos não foram divulgados, embora o Maracanã seja uma concessão pública e deveria ser regido pelas normas de transparência. Veja aqui a íntegra das respostas da concessionária que administra o estádio.
Grades de aluguel
Cercando o novo Maracanã estão espalhadas inúmeras grades para separação de fila e ordenamento do trânsito. Uma espécie de cavalete de metal. A empresa que fornece o material é a Equiloc Locação e Serviços LTDA. Duas mulheres são as donas que constam em contrato. Uma delas é Eloísa Macedo. Ela é casada com Marcelo Martins, amigo e sócio de Marcelo Viana, diretor de competições da Ferj. Documentos obtidos pela reportagem mostram que Viana e Martins são sócios há doze anos em uma loja de materiais de construção.
Fomos ao endereço de Eloísa apurar porque somente ela consta no contrato. No local, fomos informadas que ela só é sócia da Equiloc, mas que não trabalha na empresa. É no departamento de Viana, a diretoria de competições, que as reuniões para definição de quantas grades são necessárias por jogo são feitas. Segundo a Ferj, a decisão é da Polícia Militar do Rio. Segundo o Maracanã, a reunião também tem a participação dos clubes. Estes, negam que possam interferir nesta definição.
As grades são necessárias em todas as partidas, dentro e fora do estádio. E embora sejam usadas cerca de duas vezes por semana, durante o ano inteiro, o Maracanã prefere alugar os equipamentos. Elas nem chegam ser retirados entre as partidas. O custo por partida gira entre R$ 4 mil a R$ 6 mil. E a fatura é paga pelos clubes.
A reportagem fez contato com a Equiloc e com Marcelo Viana, mas eles preferiram não comentar a reportagem.
Prejuízo ao Flamengo
O novo modelo de gestão do Maracanã privado não afeta somente as finanças da concessionária. Afeta, também, clubes como o Flamengo, que optaram pelo modelo de divisão de gastos e receita no estádio. Ano passado, pagando pelos serviços e pelo aluguel (que é o dobro de outros estádios) o rubro-negro gastou mais R$ 8 milhões do que teria gasto se tivesse feito os jogos em outro local. Um valor que poderia ser usado para a compra de um jogador que recebe R$ 600 mil por mês, por exemplo, durante toda a temporada passada.
"É como se você contratasse um salão de festas para um casamento e não pudesse escolher a cerimonialista, os docinhos, as bebidas. Nós não temos o direito de escolher os fornecedores. São custos que muitas vezes chegam ao dobro do praticado no mercado. Quem paga esta conta, infelizmente é o torcedor", disse o vice-presidente de marketing do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista.

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