CHUVAS EM PETRÓPOLIS RJ: Herói da enchente de 81 em Petrópolis perdeu filha e netos nas cheias deste ano


A criança acabara de ser retirada por ele do meio do barro, no local onde nasceu, foi criado e mora ainda hoje, o bairro Independência.
Na segunda-feira, o pedreiro tentou fazer o mesmo. Dessa vez para salvar a filha Drucilane Alves Luminato, 31; o genro, Rodrigo Vale; e dois netos, Rodrigo de Oliveira Valle Junior, 4, e João Vitor Alves do Valle, 2. Todos soterrados por um novo deslizamento. Com exceção do genro, que continua na UTI, todos morreram. Ontem, Jamil se preparava para os enterros.
Na noite de domingo, quando a tragédia se repetiu em Petrópolis, Jamil ainda tentou alertar a filha por telefone dos riscos, mas era tarde.
"Quando a gente deixa a casa para trás, muita gente mexe. Hoje mesmo quase pegaram a moto do meu genro", disse, tentando justificar a suposta resistência da filha em deixar o local.
Ele diz que, depois da tragédia de 1981, a prefeitura disponibilizou abrigos provisórios para quem havia perdido a casa, o que não foi o seu caso. No entanto, nada foi feito para retirar as pessoas dali.

Estimulado pela experiência do resgate ele diz que tentou ingressar no Corpo de Bombeiros, mas foi rejeitado por ter baixa estatura. Acabou virando pedreiro.
Jamil também foi protagonista de um documentário. "Primeira Página", de Eduardo Escorel, tentou reconstruir as etapas que levaram à foto de Carlos Mesquita.

"Cheguei a comentar em casa: 'É o mesmo lugar'. Hoje, aquela foto tem uma outra dimensão, a de uma tragédia da qual nós não conseguimos nos livrar."

O sentimento em relação ao bairro onde vive é dúbio.
"Se tivesse condições de sair, saía. Mas foi o que conseguimos construir com o nosso dinheiro. Já temos amigos, vínculos ali. Vamos deixar isso tudo para trás?"

Se a inércia do poder público contribuiu para que Jamil permanecesse por mais 31 anos no mesmo lugar da tragédia de 1981, a burocracia voltou a ser inimiga.
Os corpos dos dois netos, desde segunda-feira no IML, não foram liberados pela Polícia Civil e ontem o pedreiro voltou para o Independência sem conseguir fazer o enterro de ninguém da família.
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