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Cinco dias, 5 toneladas de lixo do rio Tietê

A paisagem que se tornou o retrato da estiagem mais severa dos últimos 70 anos mudou. Após  cinco dias de trabalho, quase 6 toneladas de lixo e madeira foram retiradas do rio Tietê e das margens das encostas deSalto, o que deixou mais próximo da visão normal o ponto turístico conhecido por moradores da cidade e visitantes. Se o volume de água é menor que o habitual, o que fica à vista agora são as pedras e não o lixo.
O trabalho de limpeza contou com uma equipe de dez funcionários que aprendeu a usar o rapel, além da vassoura, para recolher garrafas pet, madeira, brinquedos, calçados e até peças de veículos. De acordo com o secretário de Meio Ambiente do município, João de Conti Neto, todos os dejetos captados foram encaminhados e enterrados no aterro sanitário da cidade. A madeira será levada para uma empresa para ser incinerada em uma caldeira.
A seca na Região Sudeste reduziu a vazão de rios importantes, deixando vários trechos com acúmulo de lixo nas margens. Especialistas ouvidos pelo G1 apontam que este é um bom momento para que o poder público limpe as áreas afetadas, antes da temporada de chuvas.
Ainda há entulho nas margens do rio Tietê (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)Ainda há entulho nas margens do rio Tietê para
ser retirado (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)
O secretário disse em entrevista ao G1 que nada pôde ser aproveitado pelas cooperativas de reciclagem da cidade, porque o material estava totalmente contaminado pelo contato com esgoto e produtos químicos. “Tudo o que recolhemos aqui não tinha qualquer condição de ser reaproveitado. Os objetos passaram por diversas modificações ao longo do ano, o que alterou a composição do plástico”, explica. O lixo foi levado para o aterro sanitário da cidade.
O secretário afirma ainda que uma nova etapa da limpeza deve começar em breve: limpar outras áreas, mais isoladas e de difícil alcance, em outros trechos da passagem do rio pela cidade. “Temos partes isoladas do rio onde há muito entulho, mas o local é de difícil acesso. O que faremos agora é um estudo de como vamos chegar até lá para continuar a limpeza. O que sabemos é que é bem provável que vamos retirar o lixo com tirolesa”, explica. Trata-se de uma variante do rapel em que a corda é esticada sobre o rio, para que os limpadores possam chegar à outra margem.
Rio Tietê, em Salto (SP)

Segundo o secretário, entre os vários dejetos recolhidos um deles chamou a atenção: a cabeça de um manequim. “Há seis meses recebemos a denúncia de que um corpo estava boiando no rio. Na época fizemos buscas e foi encontrado um manequim de loja sem cabeça. Agora, os coletores encontraram a cabeça de um boneco semelhante. Eles brincaram que as peças haviam sido montadas”, afirma João.
Conti lamenta que o descarte de lixo seja feito de forma tão irregular que diversos frascos de medicamentos foram retirados do rio pelos coletores. “Os funcionários pegaram várias caixas de remédios com todos os comprimidos e líquidos. Isso contamina demais a água. As pessoas precisam entender que o lixo tem um lugar certo para ir e o rio não é o lugar certo para isso”, explica o secretário.
Dever cumprido
Elison dos Santos tem 29 anos e está em Salto há três anos. O sergipano que chegou a São Paulo em busca de trabalho é gari no dia a dia, mas fez parte da equipe dos funcionários que recolheu o lixo às margens do rio e se diz satisfeito em vencer o medo e retirar tanta “coisa ruim” do rio. “A gente aprendeu a descer de rapel. No começo foi difícil porque era muito alto (cerca de 10 metros de descida), mas agora estamos acostumados. É como descer com as mãos nas costas. A gente fica feliz pelo trabalho que fez. O que fica é a sensação de um dever cumprido pelo trabalho que fizemos”, diz.
Elison mostra o que foi recolhido do rio em um dia de trabalho (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)Elison mostra o que foi recolhido do rio em um
dia de trabalho (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)
Ele acha, no entanto, que a limpeza pesada deveria começar bem longe: em São Paulo, a cerca de 100 km de Salto, e onde o rio começa a ficar poluído depois de nascer emSalesópolis (SP), perto da Serra do Mar. “Isso devia começar na capital e chegar até a gente. Tudo o que está aqui veio de lá, então precisa que as pessoas de São Paulo se conscientizem que tudo o que eles jogam errado chega até aqui”, diz Elison.
Oswaldo Miranda se aproveita do trabalho que fez no rio de outra forma. Morador de Salto há 20 anos e gari há quatro, ele afirma que foi a primeira vez em que se envolveu em uma limpeza tão complexa. “A gente teve que usar cordas, capacete, escada e bota especial. Tudo isso para descer no rio e, sinceramente, nunca tinha visto tanta sujeira na vida. Agora que já está melhor a paisagem, vou trazer a família aqui para exibir o que fizemos”, conta.
Instrutores ensinaram garis a usar o rapel (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)Instrutores ensinaram garis a usar o rapel para a limpeza em Salto (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)
Estiagem aumenta a procura
Em Salto, toda a retirada do lixo foi feita de rapel. Mas. antes dos milhares de sacos com os dejetos irem para as caçambas, os funcionários da limpeza tiveram que passar por um treinamento digno de esporte radical estudado por dois meses. O grupo aprendeu as técnicas de descida e subida com cordas, além de procedimentos de segurança.
Segundo a instrutora Angélica Schiffel Guigov, que trabalha no ramo há 14 anos, a estiagem prolongada possibilitou que outros municípios castigados pela seca se interessassem pelo uso de técnicas do esporte radical na limpeza das encostas dos rios que estão com o nível bem abaixo do normal. “Outras cidades nos procuraram para treinar os funcionários para recolher o lixo às margens dos rios. É interessante ver que os municípios estão aproveitando esse período difícil para promover uma conscientização sobre o meio ambiente”, ressalta.
Francisco acompanha a limpeza do rio em Salto (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)Francisco acompanha a limpeza do rio em
Salto (Foto: Ana Carolina Levorato/G1)
Ainda conforme Angélica, desde que ela e o marido Felipe foram procurados pela prefeitura para realizar o trabalho, um estudo foi feito para identificar qual seria a melhor logística para retirar o lixo. Nascida em Salto, ela afirma que o envolvimento foi mais pessoal do que profissional. “Foi a primeira vez que fizemos algo assim e fazer um trabalho importante que envolve tanta gente engajada na sua cidade é muito compensador. Agora todo esse pessoal que treinamos vai poder trabalhar nisso e deixar a paisagem daqui cada vez melhor”.
No “auge” dos 76 anos, o ambientalista Francisco Antônio Moschini desceu pelas pedras para ver de perto a limpeza do rio que acompanha desde que nasceu. Com bem menos lixo, Francisco, que afirma ser um amante das águas do interior do Estado, se diz com o coração aliviado. “Há anos falamos que é preciso colocar redes para evitar que o lixo da capital desça para os rios no interior. O que vemos aqui é uma coisa impressionante. Por baixo dessa espuma branquinha, se você colocar um algodão no rio, ele sai preto. Essa primeira limpeza é o começo da mudança que precisamos fazer com mais frequência daqui para a frente”, diz.

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