
São Paulo – Assim como futebol e política, “água” virou assunto corrente nas conversas de quem vive em São Paulo. No supermercado, na fila do ônibus, na hora do almoço, as perguntas estão sempre lá: Vai ter racionamento? A água do volume morto é boa? Como São Paulo mergulhou nessa crise? E se não chover, vai faltar? Veja a seguir algumas respostas para as dúvidas mais comuns sobre a crise.
1 – Como São Paulo mergulhou nesta crise?
São Pedro tem participação, mas pequena. O último período chuvoso, que vai de outubro à março, foi o mais seco em 45 anos, segundo dados do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo (IAG-USP). Não à toa, o verão de 2014 fez São Paulo bater vários recordes de calor.
Mas, veja bem, a responsabilidade do santo guardião da chuva termina aí. Uma parcela bem maior cabe ao poder público, o zelado oficial da água, incumbido de gerenciar esse recurso natural com parcimônia.
Faz pelo menos quatro anos que o Estado de São Paulo está a par dos riscos de desabastecimento de água na Região Metropolitana. Em dezembro de 2009, o relatório final do Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, feito pela Fundação de Apoio à USP, não só alertou para a vulnerabilidade do sistema Cantareira como sugeriu medidas cabíveis a serem tomadas pela Sabesp a fim de garantir uma melhor gestão da água.
Antes disso, na outorga de 2004, uma das condicionantes era que a Sabesp tivesse um plano de diminuição de dependência do Cantareira. O grande problema foi a demora de planejamento.
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instarou um inquérito civil para esclarecer a crise no Sistema Cantareira e apurar informações sobre a possibilidade de erros de gestão da Sabesp.
2 - Qual o impacto do uso do volume morto na qualidade da água e na saúde pública?

Estima-se que os gastos da Sabesp tenham aumentado em 40% com tratamento dessa água, comparada à água do volume útil. Procurada pela reportagem, a Sabesp não confirmou a informação.
Em nota, a Cestesb afirmou que realiza, periodicamente, análises da qualidade da água do Reservatório Jacareí, com o objetivo de avaliar os aspectos ambientais do denominado “volume morto”.
"Essa caracterização é realizada por meio de parâmetros físicos, químicos e biológicos. Com base nessa análise, verifica-se que a água do reservatório continua apresentando boas condições de qualidade, tanto para proteção da vida aquática quanto captação visando o abastecimento público”, diz o órgão.
3 – O que o governo estadual e a Sabesp têm feito para tentar contornar a crise hídrica?
De saída, a Sabesp ofereceu desconto de até 30% na conta para quem economizasse água. Com a adesão popular e controle dos desperdícios, a ação tem sido bem sucedida.
Outra medida, essa menos popular por vários motivos, foi a tentativa de provocar chuva artificial, um processo chamado de semeadura de nuvens, ao custo de R$ 4,5 milhões.
A investida mais radical, no entanto, foi recorrer a obras para retirada do volume morto, considerada por alguns especialistas uma ação deletéria.
Eles definem o quadro como uma ilusão da abundância em plena escassez, com consequências nefastas para o meio ambiente, a economia e para o próprio bem-estar da população.
Para os experts em recursos hídricos, a reserva do volume morto deveria ser usada a apenas em situação extrema, somente após iniciado um rodízio e caso as chuvas de outubro não chegassem em quantidade suficiente.
Outra alternativa, que depende menos do estado e mais da disposição dos vizinhos, é a proposta de construir um canal para retirar água da bacia do Rio Paraíba do Sul, que abastece o Rio de Janeiro.
4 – O Sistema Cantareira conseguirá se recuperar? Quando?

Deixar o manancial se esgotar, como está ocorrendo, gera graves efeitos ambientais. O esgotamento de uma represa afeta os lençóis freáticos do entorno e todo o ecossistema.
“Esses mananciais precisam ser preservados e não explorados à exaustão. É uma questão de preservação da qualidade da água”, diz Roberta Baptista Rodrigues, doutora em recursos hídricos e professora dos cursos de Engenharia Ambiental e Sanitária e de Engenharia Civil da Universidade Anhembi Morumbi.
Recuperar esses sistemas vai ser muito mais complicado, mesmo com chuvas. À medida que o nível da água reduz, aumenta a taxa de evaporação, porque o solo fica mais seco e em contato com a atmosfera. Assim, a água da chuva infiltra e evapora”, acrescenta.
Segundo análise estatística do comitê que monitora a crise, o sistema tem só 25% de chance de acumular entre dezembro e abril de 2015 uma quantidade de água (546 bilhões de litros) suficiente para repor o "volume morto" usado emergencialmente e ainda devolver ao Cantareira 37% da sua capacidade antes do próximo período de estiagem.
5 - Vai ter racionamento?
Para especialistas em recursos hídricos, SP já deveria estar racionando água, tanto para poupar este recurso quanto para preservar os mananciais. Sujeitar 9 milhões de pessoas a regime de racionamento não é uma decisão fácil. Mas é necessária, segundo Marco Antonio Palermo, doutor em engenharia de recursos hídricos pela USP.
“O uso do volume morto é uma estratégia paliativa e muito deletéria, que não trata o problema de forma estrutural. Pior, está virando rotina. Isso não pode ser prática de uma política de gestão de recursos hídricos, que deve focar na produção de água e no uso do volume útil”, defende.
Segundo ele, se São Paulo tivesse iniciado o rodízio no começo do ano, não teria sido necessário recorrer à reserva técnica, que só seria usada como estratégia última. Com isso, cresce o risco de SP enfrentar um racionamento drástico com o aprofundamento da crise.
6 – E se as chuvas não voltarem em outubro e novembro para acudir os reservatórios? SP corre o risco de ficar sem água?
"Somente se não chover até outubro é que teremos problemas", disse, em maio, o diretor de relações com investidores da Sabesp, Mario Sampaio. No pior cenário, a água se esgota até outubro, pelo cálculos do grupo de monitoramento da crise, formado pela Agência Nacional de Águas (ANA) e o Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado (DAEE).
Os cálculos contrariam a afirmação do governo de que até março de 2015 água está garantida. Recentemente, a Sabesp anunciou que pode recorrer ao volume morto do Alto Tietê, o segundo maior sistema de água da Região Metropolitana.
Estimativas apontam que a medida daria apenas um mês de sobrevida ao sistema. Qual será o plano C, quando a última gota chegar? Procurada pela redação, a Sabesp não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
Agora que a crise já está instalada, começam a sair do papel projetos antigos que podem proteger a cidade de futuros colapsos. É o caso da construção de um novo reservatório de água, em Ibiúna, fruto de parceria público-privada, prevista para ser concluída em 2018.
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