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sábado, 10 de março de 2018

O mais fiel retrato de Maria Madalena

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Maria Madalena nunca foi prostituta. Esse título surgiu no século VI durante um sermão do papa Gregório Magno ao tentar convencer os fiéis que o arrependimento era condição para a remissão dos pecados, como teria acontecido com ela. Nascia ali uma lenda que percorreu a história. Mais de mil anos depois, essa imagem permanece – embora rivalize com outras versões sobre quem foi Madalena. Esposa de Jesus? Essa hipótese está em um evangelho não reconhecido pela Igreja Católica que afirma ter havido ao menos um beijo entre eles. Nem o documento é validado nem deixa claro se houve relacionamento amoroso. Quem de fato ela foi: discípula de Cristo, uma das pessoas que proviam seu sustento, santa e, desde 2016, considerada pelo papa Francisco como “apóstola dos apóstolos”. Sua verdadeira história se perdeu em uma miscelânea de representações que ao longo do tempo misturaram cânones, teorias da conspiração e charlatanismo, dependendo do interesse de cada um e de sua época. À luz do movimento feminista contemporâneo, revisitar a personagem significa tirar dela as alcunhas equivocadas, mostrar sua importância histórica e religiosa e falar de machismo e do papel da mulher na Igreja.
É a essa tarefa que se propõem duas novas obras, um livro e um filme, cujos títulos levam seu nome e que serão lançados na quinta-feira 15. “A imagem dela como uma prostituta arrependida é uma criação deliberada da Igreja, feita para minimizar o poder e o mistério que ela ganhou através de seu relacionamento espiritualmente íntimo com Jesus. Sua comunhão direta com o divino ameaçou a estrutura apostólica”, afirma o historiador britânico Michael Haag, autor do novo livro “Maria Madalena – Da Bíblia ao Código Da Vinci: companheira de Jesus, deusa, prostituta, ícone feminista” (ed. Zahar).
Chamada de Madalena por ser da região de Magdala, na Galileia, norte de Israel, seu nome é citado pela primeira vez na Bíblia no capítulo oito do evangelho de Lucas. A lenda da prostituta começa aí. “De quem haviam saído sete demônios”, diz o texto, referindo-se a ela. Segundo a biblista Zenilda Luzia Petry, não se sabe ao certo o que essa passagem significa, mas o número sete é simbólico. “Representa totalidade. Talvez essa mulher fosse uma pessoa muito sofrida, possuía a totalidade de males. Recuperou-se e se libertou de seus demônios no encontro com Jesus”, diz. Para a pesquisadora Wilma Steagall De Tommaso, da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (Soter) e autora de um livro no prelo sobre a personagem, é uma metáfora para o que ela chama de metanoia, uma transformação espiritual. “Ela vivia uma busca por sentido em sua vida. É como se Jesus tivesse se sentido compreendido.” Porém, a palavra “demônios” e a proximidade do trecho com outro do capítulo anterior, em que se fala de “uma mulher da cidade, uma pecadora” – uma prostituta –, deu brecha à interpretação feita pelos próprios católicos de que ambas eram a mesma pessoa.
A confusão foi institucionalizada no ano de 591, quando o papa Gregório Magno afirmou que a pecadora é Madalena. Também disse ser ela outra Maria, irmã de Lázaro, o que não é comprovado. Wilma De Tommaso defende o papa Gregório: “Era uma época em que as pessoas tinham muito medo do inferno e se martirizavam. Por misericórdia, ele falou que ela pecou muito, mas foi perdoada, para dar o exemplo”, afirma. “A imagem da prostitua arrependida foi sendo historicamente construída a partir dessa homilia”, afirma André Chevitarese, especialista em história da religião e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Com o tempo, ganhou contornos de verdade. É como se a pessoa acreditasse haver na Bíblia dados que nunca estiveram lá.” Para a pesquisadora Juliana Cavalcanti, também da UFRJ, que estuda as mulheres no catolicismo, ao reduzir Madalena à figura de prostituta, a Igreja acabou também colocando outras protagonistas femininas para “debaixo do tapete”, pois ela era uma peça chave que simboliza um conjunto de grandes personagens ocupando o papel de apóstolas. Elas, inclusive, bancavam as viagens de Jesus, segundo a Bíblia. “A insistência nessa história encerra também toda a possibilidade de mulheres ocuparem cargos dentro da Igreja.”
Feminista
A história de Madalena se embolou ainda mais porque, com o tempo, a associação foi feita também com a mulher prestes a ser apedrejada por ter cometido adultério, outra anônima. Já no século XXI, o autor Dan Brown, com seu livro “O Código Da Vinci”, popularizou a lenda de que ela foi esposa de Jesus (confira no quadro ao lado), em um raciocínio falacioso que se vale de interpretações insustentáveis de antigos manuscritos não-oficiais. O livro recém-lançado se propõe a trazer essas perspectivas, enquanto o filme, com uma pegada de “blockbuster” gospel, tenta abordar a única leitura oficial sobre ela que pode ser feita: a de uma discípula fiel a Jesus. Na obra cinematográfica, ao abrir mão de se casar com um homem escolhido pelo pai e pelo irmão, ela desafia a estrutura patriarcal, que não permitia a uma mulher decidir o próprio destino, e se torna seguidora de um profeta que fala sobre amor e compaixão. Em um momento do mundo que se fala tanto sobre feminismo, a leitura pende para esse lado. Mas especialistas concordam que é impossível chamá-la de feminista. “Esse filtro de leitura não existia naquela sociedade do século I. Vai surgir do XVIII em diante”, afirma Juliana Cavalcanti, da UFRJ. “É anacrônico dar esse título a ela”, afirma a teóloga feminista Ivone Gebara. O autor Michael Haag aborda essa visão atual e concorda com as especialistas. “Ela é vista como uma vítima da Igreja. Mas acho que ela foi vítima mais por causa da sua intimidade espiritual com Jesus, entrando em desacordo com a hierarquia do cristianismo institucionalizado, que nada tem a ver com os ensinamentos de Cristo.”
Wilma De Tommaso lembra que Madalena foi considerada santa desde a Igreja primitiva, tamanha a importância dada pelo próprio catolicismo, que dedica a ela o dia 22 de julho. Na época em que viveu, contudo, a voz de uma mulher não valia como a de um homem. “Se ela visse um crime, por exemplo, sua palavra não tinha valor algum. Era uma regra cultural”, afirma. Daí vêm algumas especulações sobre o porquê seu papel ter sido historicamente renegado e sua visão da história não ter sido difundida. Ela é uma das personagens fundamentais do cristianismo, pois foi quem viu Jesus ressuscitado. Historiadores avaliam, inclusive, a possibilidade de considerá-la uma apóstola. “O critério de apostolicidade passa a ser ter visto Cristo ressuscitado. Se ela o viu, e foi a primeira, por que não considerá-la como tal?”, afirma o professor André Chevitarese. Durante a divulgação do filme, a atriz Rooney Mara, que interpreta a protagonista no filme “Maria Madalena”, diz ter ficado indignada com o rumo que o reconhecimento à personagem tomou. “Ela foi uma parte intrínseca da história, mas foi relegada ao papel de prostituta enquanto Pedro, que negou Jesus três vezes e distorceu sua mensagem, tem Igrejas no mundo todo. Ela é uma prostituta, e ele é um santo. É simplesmente incrível.”
Mensagens ocultas
Quem leu “O Código Da Vinci” ou assistiu à adaptação para os cinemas provavelmente lembra de uma das principais teorias apresentadas na história: de que o artista italiano teria retratado Maria Madalena em sua interpretação da Santa Ceia, do lado direito de Jesus. Dan Brown, autor do livro, recebeu muitas críticas na época, mas ele não criou essa teoria sozinho. O que ele fez foi popularizar uma hipótese que circulava há algum tempo. Ela aparece em “O Segredo dos Templários”, livro de Lynn Picknett e Clive Prince lançado em 1997. Segundo a dupla, Leonardo Da Vinci deixou pistas sobre o relacionamento entre Maria Madalena e Jesus no quadro, das cores de roupa à posição dos dois à mesa, remetendo a um “M” de Madalena. Para sustentar a tese, os autores se baseiam em evangelhos apócrifos, especialmente os escritos por Filipe e Maria. A hipótese, no entanto, é contestada por historiadores da arte. A versão mais aceita diz que é João o apóstolo retratado ao lado de Jesus na Santa Ceia – e que ele havia sido pintado com feições femininas em outras obras de arte.
COMPANHEIRA Da Vinci teria retratado Madalena ao lado de Cristo, em uma posição que forma um “M”. A teoria é contestada por historiadores da arte

APÓSTOLA Cena do batismo no filme “Maria Madalena”: obra a retrata como discípula de Jesus e afasta sua imagem dos títulos de prostituta ou esposa de Cristo. Abaixo, capa de novo livro sobre o mesmo tema (Crédito:Divulgação)

É em grande parte pela representação artística de Maria Madalena que a alcunha de prostituta foi disseminada. “Só conheço dois longas que saem disso, um grego e um mexicano, pouco conhecidos”, afirma a pesquisadora Juliana Cavalcanti, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O novo “Maria Madalena”, nos cinemas na quinta-feira 15, quebra o padrão. Mostra-a como uma discípula íntima, não no sentido romântico. É uma fiel escudeira, seguindo à risca os ensinamentos e batendo de frente com apóstolos. O filme retoma pregações com certo didatismo. Ainda assim, em tempos de intolerância e ódio, é uma obra necessária. A protagonista é vivida por Rooney Mara e, no papel de Jesus, Joaquin Phoenix encarna um profeta perturbado pela falta de amor entre as pessoas.
Um sucesso de vendas desde que chegou às livrarias em 1982, “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada”, de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, popularizou uma outra hipótese. Segundo os autores, Jesus e Maria Madalena foram casados e tiveram um ou mais filhos. Estes, ou seus descendentes, viajaram ao sul da França e casaram com famílias nobres. Essa linhagem daria origem à Dinastia Merovíngia, cujo primeiro representante foi Meroveu. Para o trio, o Santo Graal era, ao mesmo tempo, o útero de Maria Madalena e a linhagem de Cristo. A teoria foi considerada blasfêmia e a pesquisa do livro é contestada pela falta de provas capazes de conectar com um mínimo de precisão os merovíngios a Jesus.


fonte: Istoé

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