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General Motors estuda ter sua própria frota de caminhões para transportar seus veículos

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Pode parecer curioso um fabricante de automóveis cogitar ter sua própria frota de caminhões. Mas é nisso que a direção da General Motors está pensando. Desapontado com os rumos que o país tomou, nos últimos meses, o presidente da GM Mercosul, Carlos Zarlenga, diz que o tabelamento dos fretes rodoviários tem sido um dos principais fatores de aumento dos custos. Mas não é o único. A desvalorização do real também está na sua lista de preocupações. Para ele, 2018 transformou-se num ano de “completa instabilidade”. “O que estamos fazendo hoje é um Brasil menos competitivo”, afirma.
Não há, ainda, um plano definido para substituir o serviço de terceiros por uma frota própria. Zarlenga também não tem ainda cálculos de quantos caminhões a GM do Brasil precisaria. Segundo o executivo, as contas ainda estão sendo feitas. “Nosso negócio é produzir carros, mas a tabela do frete tem prejudicado a competitividade. Por isso, vamos avaliar, na ponta do lápis, se não vale mais a pena cuidar do nosso próprio transporte”, destaca.
A logística da indústria automobilística envolve um complexo mapa de entregas. As milhares de peças que compõem um carro chegam às fábricas a todo o instante porque esse setor funciona no sistema “just in time”, por meio do qual não se acumulam estoques. E se a ideia de comprar caminhões envolver toda a operação, a GM precisará incluir também em sua frota as chamadas “cegonhas” – caminhões que transportam os carros até concessionárias de todo o país e também até os portos de onde saem os veículos para exportação.
Líder do mercado brasileiro, a GM é hoje uma das montadoras que mais usa transporte rodoviário. A empresa tem fábricas em São Caetano do Sul (SP), São José dos Campos (SP), Gravataí (RS) e Joinville (SC), além de centro de distribuição de peças em Pernambuco.
O tabelamento dos fretes foi uma das medidas do pacote que o governo negociou com os caminhoneiros para pôr fim à greve da categoria, que provocou uma crise de desabastecimento em todo o país durante 11 dias, em maio. “Não se trata de discordarmos de um sistema de frete que garanta previsibilidade na logística. Mas se não podemos contar com a livre concorrência num setor tão importante temos que olhar alternativas”, destaca Zarlenga.
O executivo mostra-se desanimado com todo o quadro econômico do país. Ele diz que o país seguiu um rumo muito diferente do que se esperava e, por isso, 2018 será muito diferente de 2017. “O ano passado foi melhor porque foram apresentadas mudanças de longo prazo, como a reforma trabalhista”, diz. “Tínhamos expectativa de que a agenda de reformas continuasse”.
Nem mesmo o Rota 2030, o novo programa automotivo, lançado há um mês, anima o presidente da GM. Por quê? Ele diz que o incentivo fiscal para pesquisa e desenvolvimento ficou menos acessível do que era no programa anterior, o Inovar-Auto. Isso acarretará, prevê o executivo, uma transferência de investimentos em pesquisa das multinacionais do setor para outras partes do mundo.
Em relação ao câmbio, Zarlenga também deixou para trás o otimismo que manteve até o início do ano. “Achávamos que o dólar a R$ 3,14 era razoável”, destaca. Mas a desvalorização, diz, afetou a empresa. Segundo ele, o aumento de custos com importação de componentes não pode ser compensado com a exportação de veículos. A maior parte dos embarques segue para a Argentina por meio do sistema de pagamentos em moeda local, um convênio entre bancos centrais que permite o uso de moedas de cada país envolvido.
“No caso de Brasil e Argentina, trocamos uma moeda desvalorizada por outra que também passou a valer menos”, afirma. Com o câmbio de hoje, o sonho do executivo seria poder vender os carros que produz no Mercosul para mercados da Europa.
A situação da Argentina é outra preocupação do presidente da GM. Com o peso desvalorizado em mais de 30% em relação ao dólar, somente neste ano, o governo argentino continua a ter dificuldade para estancar a inflação que, segundo economistas, passará dos 30% em 2018. Zarlenga reduziu as projeções para os dois mercados: de 2,7 milhões de veículos para 2,65 milhões no Brasil e de 900 mil para 850 mil na Argentina.
Há um ano e meio, a GM reestruturou as operações na América Latina e criou a divisão Mercosul, unindo as subsidiárias do Brasil e Argentina numa única operação. Ao ser escolhido para o comando da nova estrutura, o argentino Zarlenga mostrava-se otimista com a possibilidade de a união entre o Brasil e seu país de origem ser a força que a região precisa para competir no mercado mundial. Ele ainda acredita nisso. Mas diante do atual cenário a esperança fica cada dia mais distante.

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