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A era do ódio: Crimes motivados por intolerância fazem cair a máscara da cordialidade do brasileiro

A era do ódio

LUTO Enterro das vítimas do assassino que matou 12 pessoas na noite de Ano Novo, em Campinas

Crimes motivados por intolerância fazem cair a máscara da cordialidade do brasileiro. O que se vê é a face de uma nação com raiva, capaz de apoiar assassinatos, avessa ao diálogo e aberta ao confronto

“…Não tenho medo de morrer ou ficar preso, na verdade já estou preso na angústia da injustiça, além do que eu preso, vou ter 3 alimentações completas, banho de sol, salário, não precisarei acordar cedo pra ir trabalhar, vou ter representantes dos direito humanos puxando meu saco, também não vou perder 5 meses do meu salário em impostos. No Brasil, crianças adquirem microcefalia e morrem por corrupção, homens babacas morrem e matam por futebol, policiais e bombeiros morrem dignamente pela profissão, jovens do bem (dois sexos) morrem por celulares, tênis, selfies e por ídolos, jornalistas morrem pelo amor à profissão, muitas pessoas pobres morrem no chão de hospitais para manter políticos na riqueza e poder! A justiça brasileira é igual ao Lewandowski, (um marginal que limpou a bunda com a constituição no dia que tirou outra vadia do poder) um lixo! Filho, não sou machista e não tenho raiva das mulheres (essas de boa índole, eu amo de coração, tanto é que me apaixonei por uma mulher maravilhosa, a Kátia). Tenho raiva das vadias que se proliferam e muito a cada dia se beneficiando da lei vadia da penha…”

“O indivíduo que matou em Campinas deveria compartilhar essas opiniões na rede e receber apoio de  pessoas fracas e frustradas” Leandro Karnal, historiador, sobre Sidnei Ramis de Araújo (à esq., com o filho que ele também assassinou)

“O indivíduo que matou em Campinas deveria compartilhar essas opiniões na rede e receber apoio de  pessoas fracas e frustradas”
Leandro Karnal, historiador, sobre Sidnei Ramis de Araújo (à esq., com o filho que ele também assassinou)  










A carta, que destila raiva e intolerância por diversos setores da sociedade, foi encontrada após a chacina ocorrida na noite de Ano Novo, em Campinas, no interior de São Paulo. Foi escrita por Sidnei Ramis de Araújo, de 46 anos, que executou 12 pessoas de uma mesma família, sendo nove mulheres. O filho de 8 anos a quem ele se dirige no texto também foi morto pelo pai. A justificativa para a matança que chocou o País foi o fato de Araújo estar impedido de conviver com o menino, após decisão da Justiça. Inconformado com a atitude da “vadia”, como chamava a ex-mulher, Isamara Filier, 41 anos, decidiu executá-la sumariamente, assim como todas as suas parentes presentes na celebração. Mais um crime de feminicídio, atitude apoiada por muitas pessoas nas redes sociais, como pode ser observado no quadro com comentários da pagina 64. Mas Araújo não vociferou apenas contra as mulheres. Critica ainda a legislação que pune homens que agridem companheiras, como se eles estivessem agindo corretamente, fala contra presos, defensores de direitos humanos e Judiciário, numa narrativa vertiginosa e carregada de ódio.
Uma semana antes, na noite do dia 25, o ambulante Luiz Carlos Ruas, conhecido como Índio, 54 anos, foi espancado até a morte dentro do metrô de São Paulo por Alipio dos Santos e Ricardo do Nascimento porque tentou defender uma travesti dos ataques dos dois. Poucos dias antes, Débora Soriano de Melo foi espancada e estuprada por Willy Gorayeb Liger em um bar na zona leste de São Paulo. Ele confessou tê-la matado com um taco de beisebol após uma discussão e está preso. Não há um único dia sem que um crime pavoroso ocorra no País. Mas apenas esses três relatados acima, ocorridos nas últimas semanas, mostram que o Brasil vive tempos de cólera.
Em algum momento do processo histórico brasileiro nos reconhecemos como o povo da cordialidade, da alegria, do samba. Mas essa construção social tem perdido força à medida que o discurso de ódio se prolifera, seja nas conversas no ônibus, nas mesas de bar ou nos comentários nas redes sociais. O que se vê são xingamentos, embates, críticas vazias, ironias e provocações. “A verdade é que somos uma sociedade extremamente violenta, são 50 a 60 mil homicídios por ano”, afirma a socióloga Wânia Pasinato, especialista em violência de gênero. “Além disso, aceitamos a violência em sua forma mais seletiva. 95% das vítimas são negros e jovens e 10% são mulheres.” Para o filósofo e professor de ética e filosofia política da Universidade de São Paulo, Renato Janine Ribeiro, entramos num estado de anomia, de falta de regras, em que a sociedade abre espaço para atitudes extremas. “Há uma propagação do ódio. Não passamos um dia sem um crime motivado por esse sentimento”, afirma.
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A chacina em Campinas é carregada de misoginia. Antes de ser morta, a vítima havia feito cinco boletins de ocorrência contra o ex-marido por agressão e violência. A ironia é que, mesmo assim, a lei Maria da Penha, que ele critica em sua carta, não foi posta em prática, já que mesmo com tantas denúncias nenhum processo de investigação foi aberto contra ele. Em outro bárbaro crime de feminicídio também na noite de Ano Novo, em Minas Gerais, Renata Rodrigues Aureliano foi incendiada pelo ex-companheiro que exigia retomar o relacionamento. Diante da negativa, jogou gasolina nela e a incendiou na frente do filho de 9 anos. Renata morreu por falência múltipla de órgãos. A vítima também já havia registrado um boletim de ocorrência contra Jeferson Diego Caetano da Costa. Na quarta-feira 4, um homem de 43 anos foi detido em Jaboticabal (SP) depois de postar mensagens no Facebook dizendo que iria invadir o Fórum para matar duas juízas e uma promotora envolvidas em uma disputa judicial que ele travava com a ex-mulher pela guarda do filho. Nas mensagens, dizia repetir o que aconteceu em Campinas.
“Há uma guinada conservadora que reforça a intolerância”, afirma a socióloga Wânia Pasinato. Quando se tratam de crimes motivados por preconceito, há vários grupos sociais que são alvo, além das mulheres, como negros, gays e transexuais. “Isso acontece porque o ódio busca o que pareça mais fraco”, afirma o historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas Leandro Karnal. Além disso, quando há uma parcela social que legitima essas ações, que culpa o outro pelos próprios problemas, o sentimento fica ainda mais perigoso. “O indivíduo que matou em Campinas deveria compartilhar essas opiniões na rede e receber apoio de outras pessoas também fracas e frustradas. Lentamente, ele percebeu que havia base para fazer algo.”
De onde vem a raiva?
Para a psicóloga Mafoane Odara, do Instituto Avon, o discurso do politicamente correto também pode estar travestido de violência. “Em uma pesquisa as pessoas dizem que só se pode acabar com o machismo pela educação, mas 50% dos homens e 33% das mulheres afirmam que jamais dariam uma boneca para o filho brincar.” Para mudar, é preciso afincar as políticas de segurança e de disseminação da tolerância e cobrar dos gestores públicos medidas adequadas e punições efetivas. Mas a mudança pode começar também nos pequenos universos individuais. Para Karnal, o ódio sempre vem acompanhado de sentimentos comuns a todos: medo, dor e frustração. A diferença é a capacidade de cada um em gerenciar limites. Ou desenvolvemos essa habilidade ou, parafraseando Gandhi, será olho por olho, e o Brasil acabará cego.
Ecos da intolerância
Os assustadores comentários em portais de notícias sobre a chacina em Campinas mostram que muitas pessoas compartilham do ódio
“É um discurso coerente de uma pessoa que foi levada ao limite.  Quem aqui pode afirmar que não faria o mesmo se tivesse seu filho tirado de si com uma acusação falsa de abuso?”
(Thiago S.)
“Esse cara foi movido pelo desespero. Talvez a mulher tenha feito o que é muito comum em finais de relacionamento: atacar a honra de um homem por meio de mentiras e fofocas. Essa história não tem um vilão só não.”  
(Ulysses N.)
“O nome desse desequilíbrio chama-se: injustiça. Está na hora de rever os direitos civis e de família.”
(Eduardo G.)
“Não se deve afrontar a honra de um homem!”
(Paulo S.)
“Enquanto o feminismo continuar incentivando as mulheres a se separarem, humilharem seus maridos e tirarem deles o que eles mais amam (seus filhos) continuarão sendo assassinadas. ”
(André A.)
“Se a mulher fosse submissa, andasse de burca e não tivesse pedido o divórcio, isso não teria acontecido.”
(Alex O.)
Denúncias e mortes
90 mil
queixas de violência contra mulher foram recebidas por mês pelo Ligue 180 em 2016. Houve um aumento de 52% em relação a 2015
133%
Foi o aumento no número de relatos de violência doméstica e familiar se comparados os dados do ano passado
11 mil
Boletins de ocorrência são registrados por mês somente no Estado de São Paulo
390
Mulheres são assassinadas por mês no Brasil, o equivalente a 13 por dia
Em 35,1%
dos casos de feminicídios, os agressores são parceiros ou ex-parceiros

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