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'Patria y vida': por que música recém-lançada enfureceu governo de Cuba

 


Composta por famosos artistas cubanos como Yotuel Romero, Descemer Bueno e a dupla Gente de Zona, a música viralizou em várias redes sociais do país.


Uma música levou o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, a tuitar três vezes.

 mesma canção fez com que a televisão estatal da ilha convocasse os cubanos a aplaudir e cantar o hino nacional na quinta-feira (18), com a imprensa oficial dedicando-lhe páginas inteiras de críticas e longos minutos de televisão desde quarta-feira (17).

Trata-se de 'Patria y Vida', que questiona o governo do país comunista e denuncia a situação política e econômica que atravessa a ilha.

Composta por famosos artistas cubanos como Yotuel Romero, Descemer Bueno, a dupla Gente de Zona e os rappers Maykel Osorbo e El Funky, a música ultrapassou 1 milhão de visualizações no YouTube em menos de 72 horas e viralizou em várias redes sociais em Cuba.

As autoridades reagiram, descrevendo a canção como um "lixo" e "covarde" e chamando seus autores de "ratos" e "mercenários".

Não é comum que tantas autoridades e mídia oficial reajam em uníssono apenas por uma música, como aconteceu agora.

"É assim que se canta o país: vivo em um país livre, no qual se pode ser livre, nesta terra, neste instante e estou feliz porque sou um gigante", escreveu Díaz-Canel em uma série de tuítes, referindo-se a uma canção conhecida do trovador cubano Silvio Rodríguez.

De acordo com a maioria das críticas do governo e da imprensa estatal, entre os elementos que mais incomodam estão:

A crítica ao partido no poder

Algumas das imagens mostradas no videoclipe (de protestos e repressão na ilha)

A participação de alguns músicos que anteriormente defendiam o sistema e de outros que sempre o questionaram (alguns deles integrantes do Movimento de oposição San Isidro, que fizeram greve de fome em novembro passado).

Produzida entre Havana e Miami, "Patria y vida" questiona alguns dos problemas sociais mais urgentes que a ilha enfrenta, desde a situação da moradia até o exílio ou a falta de alimentos.

"Tambor e címbalo pelos 500 (anos) de Havana, enquanto em casa as panelas não têm mais jama (comida)", canta Romero.

"Divulgação de um paraíso em Varadero, enquanto mães choram pelos filhos que partiram", diz também a letra da música.

A canção então aborda mais questões políticas até advogar por uma mudança na ilha.

"O povo está cansado de aguentar, estamos esperando um novo amanhecer", diz.

No entanto, um dos versos que mais incomodou o governo é aquele em que os músicos pedem a mudança de um slogan que Fidel Castro popularizou na década de 1960: "pátria ou morte".

"Não há mais mentiras, meu povo pede liberdade, não há mais doutrinas. Não gritamos mais patria ou morte, mas pátria e vida", diz a canção.

A música também questiona as novas medidas econômicas que o governo tem tomado para tentar enfrentar a crise pela qual passa a ilha.

"Que a gente comemore se as pessoas andarem rápido, trocando Che Guevara e Martí pela moeda", diz, aludindo à dolarização que vive a ilha.

O que o governo diz?

Em uma das primeiras reações, o ex-ministro da Cultura de Cuba e atual presidente da Casa de las Américas, Abel Pietro, descreveu a canção como "um panfleto musical" e uma tentativa de impedir uma potencial aproximação entre o governo Biden e Havana.

"Os grupos financiados no exterior e na ilha alertam que se houvesse de alguma forma uma reaproximação civilizada entre os dois países, isso significaria o fim de seus empregos e é realmente muito grotesco que uma suposta bandeira da vida seja levantada dos Estados Unidos", disse ele.

Uma crítica semelhante foi usada por vários ministros do governo, instituições oficiais e o próprio presidente.

"Pátria ou morte, gritamos milhares na noite passada com os aplausos às 9 horas e o hino de Perucho Figueredo (poeta cubano). Eles queriam apagar nosso hino e Cuba o viralizou nas redes", escreveu Díaz Canel, referindo-se à convocatória para cantar o hino.

A TV estatal cubana também dedicou amplo espaço para o assunto na quinta-feira (18). O jornal oficial Granma fez o mesmo em sua edição de sexta-feira (19), com uma reportagem de capa e várias páginas internas.


Governo promoveu uma campanha para que os cubanos aplaudissem e cantassem seu hino em resposta à canção
Foto: BBC News Brasil

Os canais de televisão interromperam suas transmissões às 21h de quinta-feira (18) para exibir o hino nacional, depois que o noticiário convocou os cubanos a cantá-lo e aplaudi-lo em uma campanha chamada "Morrer pela Pátria é Viver".

O que dizem aqueles que apoiam "Patria y vida"?

A canção, que foi postado no YouTube na última quarta-feira, rapidamente viralizou e foi compartilhada por milhares de pessoas dentro e fora da ilha.

Como diz em sua apresentação Alexander Delgado, um dos vocalistas do Gente de Zona, a canção "é o sentimento de muitos cubanos que estão dentro e fora de Cuba" - ele ressaltou que os artistas não receberam financiamento de nenhum grupo ou governo para realizá-la.

"Isso é uma coisa sincera que estamos fazendo pelas pessoas", disse ele.

Yotuel Romero, por sua vez, disse que a canção tem entre seus objetivos mostrar que os artistas cubanos buscam uma mudança.

"Acabou, acabou a mentira, acabou a traição, acabou a tortura, acabou a prisão, acabou a prisão, acabou não te deixar ser como és", disse ele.

O artista cubano Luis Manuel Otero Alcántara, líder do Movimento San Isidro, que intervém brevemente no vídeo, garantiu, por sua vez, que "Patria y vida" representa um "momento único" e que a letra "estava fazendo chorar Cuba por dentro e por fora ".

A vice-presidente do Parlamento Europeu, a tcheca Dita Charanzová, foi uma das personalidades que celebrou a canção e a publicou em suas redes sociais.



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